PITA FOGO BARRETOS

PITA FOGO BARRETOS

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Salve os três reis santos!

A tradicional Companhia de Reis Santa Joaquina está cumprindo uma maratona de promessas, fazendo visitas em residências, louvações em presépios na cidade e na zona rural. A festa de chegada do grupo está programada para a tarde do dia 15 de janeiro, na Aspum.
É época de aceitar a bandeira de Santos Reis

Palhaço pede licença para a folia adentrar a casa

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Boi soberano é invenção de Izaltino Paula

O sucesso sertanejo “Boi Soberano”, composto por Carreirinho, Izaltino Gonçalves de Paula e Pedro Lopes Oliveira, narra um transporte de boiada em que houve um estouro na entrada da manada em Barretos. Um animal salva o menino que brincava na rua, rebatendo com os chifres os bois que vinham passando, evitando assim que a criança fosse pisoteada.
Há alguns anos entrevistei  Izaltino Gonçalves de Paula, autor da letra, no Ponto de Pouso, no Parque do Peão. Ele me garantiu que o enredo da música era pura invenção, visto que na época que escreveu a letra de “Boi Soberano” nem conhecia Barretos. A primeira gravação foi em 1954, com Zé Carreiro e Carreirinho. Depois vieram outros, como Tião Carreiro e Pardinho. O relojoeiro Izaltino, de Tanabi, já partiu para a outra vida.

Tiao Carreiro e Pardinho -Boi Soberano

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Pixiu: peão e cozinheiro bom de prosa

Um dos mais antigos cozinheiros das comitivas que transportavam gado pelo Brasil afora decidiu encerrar sua participação na queima-do-alho da Festa do Peão. O vencedor da competição culinária de 1995 diz que viu, contrariado, seu prêmio rateado entre os integrantes da comitiva. Passado o incidente, Pixiu, bem-humorado, gosta de lembrar e contar à nova geração “os bons tempos” em que conduzia boiada de fazenda em fazenda até chegar num frigorífico ou charqueada para o abate.
A vida dura da lida do estradão é considerada “folgada” por Pixiu. Acordar pela manhã, fazer um café bem forte para a peonada. Em seguida, arrear o cavalo, colocar o cargueiro no burrão e rumar na frente da boiada. Depois de um tempo de marcha, arranchar, retirar da broaca as panelas, talheres e outros utensílios para preparar o almoço. No cardápio, “Maria Isabel” (também conhecido como arroz de carreteiro), feijão tropeiro e carne assada. Para tirar a poeira da goela uma aguardente de engenho ou a legítima “Barra Grande” de Mato Grosso.
O tempo é curto. A peonada “fila a bóia”. O cozinheiro lava a tralha rapidamente e segue em frente rumo ao ponto de pouso a fim de preparar a janta. O tipo de serviço o mantém um pouco isolado dos companheiros. Não admite reclamações. O argumento é poderoso:
-- “Na estrada não temos tempo de fazer mamadeirinha prá neném, sopinha de macarrão para filhinho querido. Lá em Barretos, a mamãe tem tempo”.
E o reclamante tem que engolir a definição de “bóia”.
-- “Aqui chama-se come calado... e do que tem!...”
Dia destes, um sujeito foi até a residência de Pixiu, na Vila Marília, somente para conferir que em certa ocasião o cozinheiro havia esquecido o berrante num ponto de pouso. Provocado, a resposta foi imediata:
-- “Nunca aconteceu isso!”
Ainda irritado, veio o desabafo:
-- “Onde já se viu?!?...”
Porém, admite ter esquecido a trempe (fogão) “uma única vez...”
Segundo Pixiu, durou mais de 20 dias a viagem da comitiva de Sebastião Rodrigues que levou cerca de 1.200 cabeças até a fazenda na região do Anhembi, em São Paulo, cuja proprietária seria Dona Iaiá. Era 1946, início da carreira do cozinheiro. Tuca Preto fora o corretor da boiada. A volta, até Itirapina, acontecera a cavalo. De lá, até a terra de Chico Barreto, embarcaram no trem da antiga Companhia Paulista.
Assombração, lobisomem, mula-sem-cabeça, come-língua e “outros bichos” nunca foram vistos por Pixiu. Apesar de destemido e valente, era ressabiado com casa velha, preferindo arranchar no tempo, debaixo de uma árvore. Ao garantir que não tinha medo de nada, Pixiu recorda que em certa ocasião esteve numa fazenda de propriedade de Braz de Ávila, em Três Lagoas, MS. No interior da casa, ouvia um “zumzum”, semelhante ao barulho d’água de uma cachoeira. No entanto, no terreiro, não escutava nada.
Outro fato que considera estranho acontecia na antiga chácara da Dona Henriqueta (hoje, bairro da cidade com o nome da ex-proprietária das terras). De acordo com Pixiu, à noite, mesmo com lua clara, tanto no galpão como no terreiro ou no meio do cerrado, os cachorros acuavam e não se via coisa alguma.
-- “Acho que esses lugares eram assombrados”, afirma.
No meio da prosa, Pixiu, também metido a compositor, convida o cunhado Lazinho para um “show” particular. E a dupla caipira apresenta um cururu que retrata a vida do cozinheiro\;
“O meu nome é Laudelino
Natural fui batizado
Na cidade de Barretos
Fui nascido e fui criado.
O meu pai é sitiante
Mora meio arretirado
Foi um caboclo de gosto
E também muito estimado”.
E os versos se sucedem até o arremate:
“Fomos buscar uma boiada
Entre Franca e Batatais
Eram duas comitivas
E também dois capataz.
Agenor e Sebastião
Que prá contar eram os tais
Essa ficou na lembrança
Não esqueço nunca mais...”
Quando entrevistei Pixiu em 1997, ele estava beirando os 76 anos de idade. Agora já completou 89 anos. Nasceu na Fazenda Monte Alegre, em Barretos, sendo registrado Laudelino Marques de Castro. Casado com dona Leonor teve 10 filhos e muitos netos e bisnetos. Funcionário público aposentado, ex-cozinheiro de comitiva, viúvo, mora ainda hoje na rua 38, na Vila Marília.

Publicado originalmente no jornal O Diário, edição de 13 de agosto de 1997.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Dermeval: o "cardeal" dos palcos teatrais recebeu a gratidão dos seus admiradores

Artista, alfaiate, corretor de imóveis, contabilista, colaborador de jornal, radialista, vereador, esportista, Dermeval de Almeida – um verdadeiro “homem de 7 instrumentos” – nasceu em Jaboticabal em 16 de março de 1899, filho de Candido José de Almeida e Olímpia Ferraz de Almeida. Seu pai o registrou a 2 de agosto do mesmo ano, episódio que concedia a Dermeval o direito de receber dois presentes de aniversário por ano.
Dermeval de Almeida veio para Barretos em 1912, indo trabalhar como aprendiz na alfaiataria de Hugo Moni. Em 1921, passou a dedicar-se a contabilidade. A 19 de janeiro de 1935 casou-se com Joana Cesar de Almeida, tendo 5 filhos: Dermeval, Maria Luiza, Paulo Cesar, Roberto e Margarida, que lhe deram netos e bisnetos.
A estréia de Dermeval de Almeida no palco aconteceu em 1922. Convidado por Antonio Baroni, que veio de Campinas para residir em Barretos e montou um corpo cênico na cidade, o estreante começou a carreira com a peça “A Tosca”. Empolgado, propagou o feito aos amigos. Porém, na encenação, fez apenas uma “pontinha”:
-- Antonio?! – chamou um dos personagens.
-- Vossa Excelência me chamou? – respondeu Dermeval.
-- Chamei sim. Leve essa gente para dentro e dê-lhes de comer.
-- Sim. Venham!...
Dermeval de Almeida, então, saiu de cena. No outro dia, os amigos lhe questionaram sobre a sua curta aparição no palco
-- Ora Dermeval! Você não disse que ia trabalhar no teatro?
-- Mas... é só para começar – justificou.
Dermeval de Almeida lembrou da “indumentária apropriada” de sua primeira aparição em cena: “calça curta, meia comprida...” Daí para frente sua carreira não mais parou. Integrou o corpo cênico da UEC. Fez dramas, comédias, atos variados, declamou, serviu de ponto em teatro e circo. Atuou com muita gente conhecida: Ildebrando Araújo, Tibúrcio de Paula, João Falcão, João Rocha, Claudio Baston, Vilma Morais, Inês e Eunice Espíndola, José Expedito Marques, Layer Garcia de Oliveira, Janete Bampa, Luiz Carlos Arutim, Humberto Beviláqua, Ribas Filho, Maria Luzia França Chubacci, Nina, etc....
Trabalhou em inúmeras peças: A Noiva e a Égua, Nhô Manduca, Turibio 39 da Oitava, O Tio Padre, Auto da Compadecida, Os Três Sargentos, Terra Bendita, Rumo Leste a Cardef, A Tosca, A Guerra Mais ou Menos Santa, A Ceia dos Cardeais, entre outras. Contudo, o papel de caipira em “Na Roça” foi o que mais agradou Dermeval de Almeida durante sua carreira artística. Sempre gostou de personagens cômicos. Posteriormente, esses papéis passaram a ser interpretados por João Falcão, que tinha mais jeito para a comicidade, segundo Dermeval.
Não é qualquer ator amador que tem na platéia a aplaudi-lo nomes consagrados como Cacilda Becker e Valmor Chagas, como aconteceu na peça “Rumo Leste a Cardef”. Sua performance nos palcos acabou proporcionando alguns casos pitorescos. Certa ocasião, em Campinas, minutos antes de interpretar o “Auto da Compadecida”, foi confundido com um bispo de verdade, em virtude da caracterização do personagem que representava. Aliás, o “bispo” logo foi promovido. Em 1978, no programa Silvio Santos, no quadro “Cidade x Cidade”, deu a vitória para Barretos contra Marília com sua atuação em “A Ceia dos Cardeais”.
Antes da instalação de emissora de rádio na cidade, Dermeval de Almeida era apresentador do serviço de alto falante da Praça Francisco Barreto, que funcionava embaixo do coreto. Com a inauguração da Rádio Barretos, comandou programa infantil na emissora, ao lado do Maquininha e Luiz Venâncio Diniz. O programa pagava um prêmio em dinheiro para o melhor cantor dominical.
Dono de um português correto, Dermeval de Almeida não se conforma com a linguagem atual do teatro e televisão. E lamentou:
-- Falam: “não te vi”.
Reclamou ainda que hoje em dia dizem muitas bobagens na televisão e no teatro, sob a alegação que os tempos mudaram.
-- Mas eu não mudei, ressaltou.
Aposentado dos palcos e ocupando a cadeira 17 da Academia Barretense de Cultura, Dermeval de Almeida foi homenageado pela Uniart – União dos Artistas Barretenses – no dia 6 de junho de 1992, no Anfiteatro Jorge Andrade, da então Fundação Educacional de Barretos, durante a premiação do 2º Festeart – Festival Estudantil de Teatro. Ele recebeu o Troféu “João Falcão”. Foi o reconhecimento de seus admiradores pela sua contribuição e dedicação ao teatro amador de nossa cidade.

Publicado originalmente no jornal O Diário, edição de 5 de junho de 1992, sob o título Homenagem da Uniart a Dermeval de Almeida.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O caso da aparição da Virgem Maria na cidade na década de 50

Duas reportagens publicadas pelo “Correio de Barretos” em 1956, edições de 19 de agosto e 7 de outubro, repercutiram na cidade. Nelas, o funcionário público José Lúcio dos Santos, o Zé Lúcio, declarava que a Virgem Maria lhe teria aparecido algumas vezes. Nascido em Iporanga, no Vale do Ribeira, interior de São Paulo, a 30 de junho de 1918, veio para Barretos em 1943. Casou-se, teve filhos e netos. Clarinetista, funda em 1959 a Corporação Musical “Imaculada Conceição”, que posteriormente se incorpora a Lira Barretense. No livro “Espiral – História do Desenvolvimento Cultural de Barretos”, Ruy Menezes cita o trabalho do músico.
Quando trabalhava como servente no Grupo Escolar Cel. Almeida Pinto, começou a ter uma visão estranha, de uma moça loura, muito bonita. O “fenômeno” deixava o funcionário muito nervoso, perdendo os sentidos. Preocupado, pediu transferência para o Grupo Escolar da Vila Baroni, pensando que, assim procedendo, as aparições terminariam. Foi transferido de escola. Contudo, a visão continuou.
Zé Lúcio contou que no dia 3 de agosto de 1956, uma segunda-feira, por volta das 10 horas, estava estudando matemática, sentado num banco, no recreio do Grupo da Vila Baroni. Nesta época o servente cursava a 3ª série. A manhã estava fosca, céu nublado, pois chovera na véspera. De repente, sentiu um facho de luz, que clareou as páginas do livro.
Piscando, pelo efeito da claridade nas vistas, Zé Lúcio afirmou que olhando para o poente, vislumbrou no ar, numa altura de 15 metros, mais ou menos, uma figura de mulher, de uns 30 anos de idade. Ele já conhecia a “Senhora”, pois era a mesma que lhe aparecera na Escola Almeida Pinto. Tinha um metro e meio de altura, aproximadamente. Suas roupas eram brancas, mas, de uma alvura singular, todas envoltas em luz ofuscante, claridade essa que mais se acentuava no rosto e cabeça. Atônito, o barretense contou que a aparição lhe falou com uma voz meiga, que jamais esquecerá.
-- “Não tenhas medo, meu filho! Eu sou a Mãe de Jesus!”
Em seguida, a “Senhora” disse que o mundo estava à beira do abismo, pela falta de religião dos homens e por causa de sua grande perversidade. A Virgem pediu que o rosário fosse rezado com mais amor e devoção para que o mundo se livrasse da situação calamitosa em que se encontrava. Disse, ainda, que gostava muito do Brasil e condenou as modas femininas da época.
Zé Lúcio informou que a aparição durou cerca de 15 minutos, retornando posteriormente quando estava na diretoria da escola. Na ocasião, ele chamou a atenção, para o ato, da diretora Ermelinda Schultz Silva. Ouvida pela reportagem do “Correio de Barretos”, a diretora confirmou que, de fato, o servente Zé Lúcio, em sua sala, bradava que estava vendo a Virgem Maria e tanta sinceridade havia em suas palavras e se tratava de um senhor tão sério e distinto, trabalhador e correto, que não tinha ela dúvida em dar-lhe crédito. Sobre o mesmo assunto, o jornal ouviu ainda o diretor da Escola Almeida Pinto, Luiz Castanho Filho, onde antes trabalhava o servente. O professor fez as melhores referências sobre Zé Lúcio, não descrendo da possibilidade da aparição.
A 3 de outubro de 1946, por volta das 10h40, quando vinha de bicicleta do Grupo da Vila Baroni, ao chegar à rua asfaltada, viu em sua frente, novamente, o conhecido clarão que precede, sempre, as aparições. Em seguida, surgiu a Mãe do Céu, a uns 3 metros de altura do chão, resplandecente como de costume.
A Virgem falou-lhe então, que, agora que ele havia perdido o medo, iria aparecer-lhe sempre. Recomendou a prática da castidade, muita oração, penitência, respeito pelo templo e pelos mandamentos da Lei de Deus. Ao dizer a “Senhora” que muita gente na cidade não dava crédito às aparições, foi informado por Ela que, em breve, daria prova concreta da realidade das visões, a fim de afastar quaisquer dúvidas.
Quanto a um pedido antigo, que Zé Lúcio fizera à Virgem para zelar pelo seu filho Paulinho de Tarso, que estava no seminário, veio uma resposta contundente. Garantiu-lhe Ela que faria do seminarista um digno sacerdote.
Passados 36 anos, entrevistei Zé Lúcio, que mantinha a convicção da autenticidade das aparições, descartando a hipótese de ilusão, alucinação, sonho ou fantasia. As provas concretas prometidas pela Virgem não aconteceram porque Ela não apareceu mais, justificou. Alegou que não sabe explicar o motivo da ausência da “Senhora”, mas espera um retorno das aparições.
O filho de Zé Lúcio, Paulo de Tarso, ficou uns 3 anos num Seminário em Campinas e não se tornou padre, conforme prometera a Virgem. Em 1992 era gerente de uma agência bancária. Zé Lúcio garantiu que a Mãe de Deus não falhou na promessa. Alegou que quem atrapalhou a carreira sacerdotal do filho foi um vigário da época. O padre teria enviado uma carta ao reitor do seminário, recriminando a conduta do jovem durante as férias. O motivo apresentado teria sido “os espíritas” da família.
Após as aparições, Zé Lúcio ficou muito “reservado”. Atendeu ao conselho do padre Paulo Campos Dall’Orto que teria dito para ele não procurar ninguém para falar sobre o assunto, evitando principalmente o assédio dos espíritas. Garantiu que nunca procurou ou foi procurado por qualquer pesquisador, psicólogo, psiquiatra, parapsicólogo, para o estudo das aparições.
Quando o entrevistei, no quarto da residência de Zé Lúcio havia um oratório com uma imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição de quase meio metro de altura. Ali, o vidente mantinha uma vela acesa e rezava terços diariamente. Com orgulho, mostra um cartão enviado de Portugal com a foto da Irmã Lúcia – vidente de Fátima, na época ainda viva – com o Papa João Paulo II e os retratos de Jacinto e Francisca. Zé Lúcio mostrou cópia de carta enviada a Irmã Lúcia em maio de 1990, respondida a 5 de julho do mesmo ano.
Zé Lúcio acredita que tem o poder de cura, mas não o exerce temendo ser processado pelos médicos pela prática de “curandeirismo”. Contudo, atende a muitos pedidos de oração, enquanto se abstém do dom da “imposição das mãos”. Revelou que já contou sobre as aparições para o bispo Dom Pedro Fré, para o vigário da Catedral, padre Cesar Luzio, e para o padre Gabriel Correr, seu confessor.
A reportagem do “Correio de Barretos” de 7 de outubro de 1956, classifica Zé Lucio como homem direito, católico, chefe de família, honrado, cumpridor de seus deveres, normal, sadio, cuja palavra deve merecer a consideração geral. Argumenta que tendo a história dessas aparições registradas já tantos fatos comprovados, como Fátima, Guadalupe, Lourdes e outras, por que descrer que somente o caso em tela é que não pode ser autêntico?
O jornalista lembra que “para os incrédulos, entretanto, há agora, a promessa de Nossa Senhora, de que, em breve, dará provas concretas da veracidade das visões de Zé Lúcio. Resta-lhes, apenas, nessas condições, esperar”.
Em 1992, havia passados 36 anos e a espera continuava... e pelo jeito prossegue até hoje.


Publicado originalmente no jornal O Diário, edição de 25 de outubro de 1992.

sábado, 11 de dezembro de 2010

O “Come-língua” assustou o povaréu

A notícia correu em Barretos por volta de 1936 e deixou muita gente assustada. Nos sertões goianos, estavam aparecendo rezes mortas, sem a língua. Não havia sinal de doença, nem de luta com animais ferozes. E a imaginação popular chegou a criar um monstro, o “Come-Língua”.
Com o decorrer do tempo, o “bicho” teria passado para Minas Gerais, atacando várias cidades, como Patos e Uberaba. Em 1938, o monstro teria pulado o Rio Grande, entrando no território paulista. As explicações sobre sua origem eram muitas. O jornal “Correio de Barretos” publicou uma versão, de Campo Belo, no Triângulo Mineiro.
Praça Francisco Barreto em 1938, época que circulou a versão mineira da lenda do "Come-Língua". Foto Fiori - Acervo do Museu Ruy Menezes.

De acordo com a lenda, um lavrador recebia diariamente, na roça, o almoço e o jantar, que eram levados por seu único filho, um rapaz comilão e peralta. Nos últimos tempos o jovem deu de comer, durante a caminhada para a roça, as carnes que levava ao pai, deixando-lhe somente os ossos. O pai reclamou ao filho. A explicação foi sucinta: a carne era comida por um companheiro que sua mãe havia arranjado.
A mãe, interpelada pelo marido, ficou horrorizada com a justificativa do filho e afirmou que ele é quem comia a carne pelo caminho. O filho, no entanto, jurou, na presença da mãe, que ela tinha um companheiro que mandava ao pai os ossos.
O lavrador enfurecido acreditou no filho e espancou cruelmente a esposa. E meio louco de ódio, cravou-lhe uma faca no peito. E a mulher, ao morrer, ainda teve tempo de atirar ao filho uma praga: como ele tinha sido tão linguarudo, haveria de passar, dali por diante, durante 7 anos, alimentando-se apenas de língua.
Assim nasceu a lenda do “Come-Língua”.

Publicado no jornal Documento Diário, edição de 2 de março de 1993.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Acudam: a boiada estourou em Barretos

Durante muito tempo, Barretos conviveu com os estouros de boiadas. Na terra do gado e do peão de boiadeiro, os antigos moradores contam muitas histórias sobre os tais acontecimentos. Alguns episódios ficaram famosos.
A 11 de abril de 1943, o editorial do “Correio de Barretos”, pedia a abertura de nova estrada boiadeira. Segundo o jornal, os moradores entre as ruas 4 e 8, avenidas 15 e 31, estavam apavorados com os freqüentes desastres, especialmente os ocorridos durante os estouros de boiadas, com animais invadindo casas e quintais. Na época, um abaixo-assinado contendo mais de 500 assinaturas, reivindicava a mudança do corredor boiadeiro da rua 4. O documento foi entregue ao prefeito Fabio Junqueira Franco.
Dois anos depois, a 24 de junho de 1945, após a missa em louvor a São João Batista, celebrada na matriz do Divino Espírito Santo, um estouro de boiada surpreendeu os fiéis que saíam da igreja e assustou os moradores da cidade. As súplicas eram ouvidas à distância:
-- “Valha-me Nossa Senhora dos Aflitos!”
-- “Socorra-nos Menino Jesus!”
-- “Acuda-nos Virgem Maria!”
-- “Defenda-nos São José!"
Apesar das preces ou em razão das orações, apenas um boi atacou e chifrou o sapateiro Camilo Simão, deixando-o prostrado ao solo, no jardim da matriz. A vítima foi socorrida pelo dentista Narciso Antonio Junior.
No dia 7 de junho de 1965, segunda-feira, aconteceu um dos últimos estouros que se tem notícia em Barretos. Mais de 300 bois que estavam sendo conduzidos ao Matadouro Minerva se espalharam pela cidade, principalmente pelas praças e ruas centrais. Foi um Deus nos acuda! Gente correndo, boi investindo, o comércio fechando apressadamente as portas, uma confusão enorme.
Depois de duas horas de caçada aos bois, a cidade estava diferente. No jardim central, nas ruas, nas avenidas, no bairro Primavera, na Vila Baroni, por todos os cantos, enfim, havia boi amarrado. Uma frota improvisada de caminhões recolhia os animais. Acompanhado do tio Osvaldo, o historiador Bié Machinone, viveu a aventura, fotografando animais atados em diversos pontos da cidade.
O jornalista Paulo Flosi ironizou o episódio no jornal “A Semana”, de 13 de junho, com a crônica “Eu destaco você”, com algumas gozações que corriam na praça.
Motivo de susto e piadas, o fato é que estouro de boiada felizmente não acontece mais por estas bandas. Mas vive nas lembranças de muitos barretenses.


Publicado no jornal O Diário, edição de 27 de Junho de 1998.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Tragédia: raio atinge peões no estradão, apenas um deles escapa da morte

Julho de 1942. Os relâmpagos anunciavam uma tempestade. As nuvens escureciam cada vez mais o cenário. Era noite. As faíscas no céu iluminavam o caminho. A sucessão de descargas elétricas e trovões antecipava a intempérie prestes a se abater sobre aquela região.
Antiga Estação de Mandembo - fonte site Estações Ferroviárias do Brasil
No corredor boiadeiro três peões retornavam de uma viagem. O patrão os enviara “prá baixo” da estação férrea de “Mandembo”, localizada em Bebedouro. Foram entregar uns garrotes. Tarefa cumprida voltavam para casa. Cavalgavam lado a lado. Tentavam fugir do temporal. Buscavam abrigo. Trotavam os animais, pois não era possível galopar na noite escura.
Uma porteira reteve por alguns instantes Carlito, João de Abreu e Cosmo Beltrão. Era mais ou menos umas sete e meia da noite. Naquela situação não era possível consultar o relógio. Ultrapassando o obstáculo, depararam com um areião. Amontoados de arranha-gatos secos ladeavam a estrada. Tudo indicava que os espinhos foram retirados da invernada e colocados à beira do caminho.
De repente, um clarão súbito acompanhado de um estrondo. Luz intensa, viva. Instantânea. Sem tempo para qualquer reação. Uma explosão. Sem nenhuma oportunidade para pensar no que estava acontecendo. Parecia que o mundo chegava ao fim. Em chamas. Fogo... Um raio atingia os três boiadeiros. A chuva “brava” caía. Um dilúvio.
Carlos Faria, o Carlito, na época com 21 anos de idade, quase não lembra com detalhes o que aconteceu naquela noite. Com o passar do tempo a cabeça ficou ruim. Porém, recorda que o impacto provocado pela descarga elétrica lançou-o para frente do animal. Atordoado, recuperou logo os sentidos. Voltou à razão, ficou em condições de observar o que havia acontecido. Ao seu redor, três animais e dois companheiros encontravam-se estendidos no chão.
Antes de dominar a situação, Carlito sentiu falta de alguma coisa. Reparou, então, que a botina do seu pé fora arrancada. A espora desaparecera. Sumiu na enxurrada. O chapéu de estimação nunca mais viu. O arranha-gato rasgou sua roupa quase o deixando pelado. Assustado com a tragédia, não deixou que o medo o dominasse. Precisava de muita coragem para salvar os companheiros.
A chuva caía. Porém, segundo Carlito, a água não apagava aquele fogo. As roupas dos companheiros estavam em chamas, O peão não titubeou. Tirou a camisa do Cosme Beltrão, na ânsia de livrá-lo da morte. Mas o esforço foi inútil. Notou que havia um vergão de “ponta a ponta” no boiadeiro e no seu cavalo. Foram fulminados.
-- “Ele morreu debruçado no arreio”, balbuciou.
O outro companheiro, João de Abreu, também estava morto. Foi encontrado embaixo do animal. Carlito tentou tirá-lo de lá. Não deu conta. O peso era enorme. As forças diminutas. Encontrava-se sozinho. Precisava de ajuda. Então, deixou-os naquele local e saiu andando pelo pasto em meio a tempestade. Orientava-se pela claridade dos relâmpagos. Buscava socorro...
-- “Salvei-me por Deus!”, exclamou Carlito.
Depois do episódio, o sobrevivente ficou um mês sem trabalhar. Não queria sair de casa. Se notasse a formação de nuvens, anunciando a possibilidade da chuva, escondia-se embaixo da cama. Ficou com medo. A cisma, no entanto, aos poucos foi passando. Devagarzinho...
Certa ocasião, Carlito encontrava-se lidando com gado numa invernada, lá em Bebedouro. Bem longe da sede da fazenda. Aos poucos, a formação de nuvens previa chuva. O peão não hesitou. Montou o animal, cutucou a espora e chegou o chicote. No desespero para escapulir ao possível temporal, açoitou tanto a montaria que quase a matou. Mas a chuva não veio...
Cinquenta e sete anos depois, Carlito achava que o medo é bobagem. Em sua opinião, “quando tem que acontecer...”
No local do acidente, construíram uma capelinha. O sobrevivente já passou várias vezes pelo lugar. Não receia nem teme coisa alguma. Guarda apenas lembranças e saudade dos companheiros falecidos. Acha que a tragédia dava moda de viola. E quando lhe disseram que o lugar é assombrado, contestou:
--“Eu viajei sozinho pelas estradas com arribada. Pousava no mato... boi amarrado no pau... mula.... tudo mais e nunca vi nada disso....”
Aposentado, o peão gostava de lembrar-se dos tempos em que morava na estrada. Cama quase não via, dormia só na rede. Casou-se, mas a união não deu certo. Separou da mulher. Diz que perdeu as contas dos netos e bisnetos.
Reprodução de foto publicada no jornal "Barretos Bairros" de agosto de 2005, onde Carlito segura o berrante, tendo ao lado a cachorra "Sari".
A primeira vez que papeei com Carlito ele morava na Vila Marília. Era 1977. Reencontrei-o no mesmo bairro, mas em outra casa, em 2005. Corintiano, tinha aos 85 anos a companhia da fiel cachorra “Sari”. Em agosto ele pretendia ir ao Parque do Peão para tentar receber uma dívida antiga.
--“E espero que o rapaz esteja lá!”
Desconheço o resultado do pretenso acerto de contas. Não falei mais com o peão. Depois, soube que Carlito já se tinha ido desta terra....

Publicado originalmente no jornal O Diário, edição de 18 de novembro de 1997; e no jornal Barretos Bairros, edição da 1ª quinzena de agosto de 2005.

A péssima fama de Barretos se confirma

Barretos, no passado, tinha fama de ser uma cidade de valentões, onde a violência imperava. Muitos “causos” se contam sobre aquela época. Lembremos um deles.
Alcebíades Menezes estudava em São Paulo por volta de 1917. Numa roda de conversa, um estudante de Direito reparou no sotaque e no modo de falar do barretense. Então, perguntou:
-- “De que cidade mineira você é?”
-- "Sou paulista! Sou de Barretos!”
Imediatamente a resposta de Alcebíades Menezes, o bacharelando retrucou:
-- “Cruzes! Você é daquela terra de bandidos? Quantos você já matou???”
Alcebíades Menezes, barretense bairrista, apaixonado pela sua terra, procurou defender a cidade. Mas não havia argumento que convencesse o futuro bacharel. Sem nenhuma cerimônia, ele dizia coisas horríveis de Barretos e a sua gente.
Durante a discussão, Alcebíades Menezes já estava perdendo a paciência com o debatedor, quando um garoto que vendia jornais passou por perto e gritou bem alto:
-- “Óiaaaaaaa o Estadinhooooooooo!... O crime de Barretossssssssss!”...
Alcebíades Menezes comprou o jornal. A publicação trazia com muitos detalhes a notícia do assassinato do advogado Francisco Itagiba. A vítima havia sido covardemente baleada no seu gabinete de trabalho através de uma janela que dava para a Praça Francisco Barreto.
Diante a notícia, o acadêmico falava com ares de vitória
-- “Eu não disse! Eu não disse que esse Barretos é o fim do mundo!?!”
Murcho, angustiado pela derrota, Alcebíades Menezes não teve alternativa senão voltar para o seu quarto de pensão. Muito sentido com a situação percebeu que a péssima fama de Barretos se confirmava.
Rua 18 em 1917 é uma das fotos antigas do acervo do Museu Ruy Menezes

Publicado no jornal Documento Diário, edição de 27 de fevereiro de 1993.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Japonês de 84 anos atacou de "samurai do berrante" na venda do "Nêgo Peão"

Manhã de sábado, 28 de agosto de 2010, no Ponto de Pouso, no Parque do Peão. Um velho japonês meio desconfiado e parecendo um estranho no ninho, observava a movimento de preparação para o concurso de berrante e para a competição culinária dos peões conhecida como Queima do Alho. Convidado pela organização do evento, não se fez de rogado, puxou o berrante pendurado no seu ombro e “executou” o instrumento no palco aonde os “artistas” iriam se apresentar, em frente a venda do "Nêgo Peão". Foi muito aplaudido.
Repórter Marcos Diamantino entrevistou o berranteiro oriental
Assim Hirofumi Fujiwara, o “seo” Mário, 84 anos, nascido em Hyogo, Japão, chamou a atenção dos presentes e da imprensa. Foi entrevistado pela televisão, jornais e pelo site oficial de Os Independentes, a Associação que organiza a Festa do Peão de Barretos. Ficou orgulhoso do seu feito.
Contou que há muito tempo mora em São Paulo, onde foi lavrador, massagista e comerciante de material fotográfico. Quando descobriu o concurso de berrante de Barretos ficou inquieto. Um dos filhos o trouxe ao evento. Há 5 anos comprou seu primeiro berrante e há meses começou a aprender a tocar o instrumento. Um vídeo do berranteiro Zé Capeta, baixado da internet, o estimulou ao aprendizado, embora a surdez parcial causasse um pouco de dificuldade. No entanto, “seo” Mário garantiu que pretendia aperfeiçoar o toque do berrante e divulgar a cultura caipira no Japão.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Sem fim

Sentimento profundo
Sem diálogo
Alma sofrida
Espinhos viventes

Sonho impossível
Dois – uma vida
... Decepções...
... Marcas...

Soluços incontidos
Prantos esparsos
Face molhada
Vida sem vida.

...Realidade...
Aparência fingida
...Soluções?...
Apenas... – um...

Final feliz
Dois separados
Destinos opostos
Amor eterno.

Nota do editor: Para um jovem de 18 anos, bastante madurez. Uma visão interessante de que é possível um desencontro com amor e uma possibilidade de construir contra o destino.
P.P.R.

Publicado no jornal “O Lutador”, edição de 28 de abril de 1974 (Belo Horizonte, MG)

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Boi causa confusão no centro da cidade

Durante muito tempo Barretos conviveu com os “estouros” de boiadas. Na terra do gado muitas histórias são contadas sobre tais episódios. Alguns deles ficaram famosos. Viraram lenda.
No dia 25 de abril de 1940, por volta do meio dia, um boi agitou o centro da cidade. Desgarrado da manada, o animal foi acossado na Rua 14 por dois peões. O “bicho” acabou dando um baile nos boiadeiros, correndo pela rua até a Avenida 17. Daí seguiu até a Praça Francisco Barretos, onde ficou parado, observando o movimento.
Sentindo-se perseguido, o animal adentrou a “Casa Oriente”. A loja estava vazia. Era hora do almoço. Funcionários e fregueses tinham saído. Lá funcionava uma alfaiataria de propriedade de Alcino Abdala.
O boi “fumaça” entrou no prédio, não quebrou nada e foi parar na sala dos alfaiates, ficando entre as máquinas de costura e a mesa do contramestre. Descoberto, foi laçado pelos peões.
Na saída da loja, o boi provocou estragos. Na luta com os peões, foram danificadas duas vitrines, um manequim, entre outros objetos. Os prejuízos foram avaliados em 500$00. Na confusão, o proprietário Alcino Abdala machucou o braço. Mas o episódio não passou de um grande susto, com algum xingatório.

Publicado originalmente no jornal “Documento Diário”, edição de 5 de março de 1993, sob o título “A farra do boi fumaça”.

sábado, 27 de novembro de 2010

Duro, Pancho arremata prenda na festa

A Festa do Divino estava animada na Praça Francisco Barreto naquele mês de julho de 2007. Os shows prendiam a atenção do público. Os leilões eram intercalados com as apresentações. Bem no meio da festa, Lourival Lemes dos Santos, o Radinho, degustava um frango arrematado na quermesse. Eis que surge Luiz Carlos da Silva, o fotógrafo Pancho, que vendo o amigo sozinho à mesa, resolveu fazer companhia.
Quando Pancho saiu de casa naquela noite, após registrar um casamento, a esposa Margarida fez a recomendação. Por contenção de despesas, ele não podia gastar nada na Festa do Divino. O fotógrafo concordou com a argumentação, tanto que não levou consigo “um tostão” no bolso.
O ator Euri Silva, falecido recentemente em acidente de moto, era o leiloeiro oficial da Festa do Divino. Havia muitas prendas. O quarto de leitoa estava “encalhado”. O produto estava difícil de vender em virtude da variedade e quantidade de alimentos oferecidos ao público.
Também lá estava eu fotografando a festa. Registrando imagens dos shows, danças, apresentações de artistas variados. Quando me viu perto do palco, Pancho fez um aceno de cumprimento. Respondi.
Naquele momento, o leiloeiro Euri Silva estava “fechando o negócio” com a prenda.
--“Dou-lhe uma..... dou-lhe duas....”.
Ao ver o aceno de Pancho, bateu o martelo:
--“Dou-lhe três!..... Vendido para o Pancho..... por 35 reais.....”
O leiloeiro não percebeu que o aceno do Pancho era para mim e não para ele. Mesmo assim, a prenda foi parar na mesa em que estava o “arrematador”. O problema era que o dito cujo não tinha dinheiro no bolso. Estava duro. Aí, não teve jeito. Apelou para o Radinho, que lhe emprestou a grana.
Ao voltar para casa com aquele “quarto de leitoa” embrulhado em papel celofane, Pancho ainda teve que ouvir as “broncas” da Margarida:
-- “Não te falei que não era para você gastar dinheiro na festa????????”

Pancho e Radinho na Festa do Divino de 2007

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Café Goiano, "as primas" e a cachaça

O Café Goiano, no alto da rua 28, em Barretos, era tradicional ponto de encontro de peões. Ali os comissários contratavam seus ajudantes. Os peões atraíam o mulherio e vice-versa. O que ganhavam no estradão gastavam na farra com “as primas” e a cachaça. Neste ambiente, ocorriam algumas brigas. Assim morreu Belmirão, contou Gentil Prata:
-- “Dois cunhados estavam tomando cerveja e começaram a discutir. Belmirão interveio: -- Mas que homens sem-vergonha, gente! São parentes e brigam por cachaça...”
-- “Um dos sujeitos não gostou da interferência. Sacou de um revolver e disparou três tiros contra a cabeça de Belmirão. Matou meu cozinheiro e companheiro de viagem”.
Assim lembrou Gentil Prata.
-- “Brincalhão, meu amigo bebia mas era inofensivo. O crime ficou gravado na minha memória”.
Depois da confissão, o comissário recordou que certa ocasião trazia cerca de 1.200 bois para Barretos. Antenor Duarte, avô de Henrique Prata, era o dono do rebanho. Na Volta Grande, Minas Gerais, entre Guaíra e Uberaba, a boiada estourou. Foram 5 dias para reunir a manada. E ainda ficaram 8 cabeças de arribada (para trás), conduzidas posteriormente ao seu destino. O fato fez com que Gentil Prata comentasse:
-- “Nestas ocasiões, o peão assusta, sente medo e o perigo de perto”.
Na opinião de Gentil Prata, berranteiro bom atrapalha a condução da boiada:
--“Peão boiadeiro tem suas manhas. Quando chega nas vilas, currutelas, patrimônios e cidades, ele começa a florear no berrante para chamar a atenção dos moradores. O povo ajunta e espanta a boiada”.
Referiu-se sorrindo a respeito do berranteiro que mais ganhou título no concurso em Barretos.
-- “O Alceu Garcia me fez muita raiva”.
Ao garantir que “baile no mato é mais gostoso”, Gentil Prata confessou seu gosto por um pagode, onde “agarrava nas escadeiras da Maria”.
Ressaltou, entretanto, que “hoje acabou.... nem no sonho!...” E confirmou a fama que peão de boiadeiro é mulherengo, com muito “rolo” pelos lugares onde passa. Sério, sustentou que como comissário sempre procurou se afastar das “oportunidades” para não dar mau exemplo.
Nascido em 5 de maio de 1913, Gentil Prata já se foi....

Publicado originalmente no jornal O Diário, edição de 19 de agosto de 1997, com o título “Gentil Prata no tempo das comitivas”.

Eu, Deus, as galinhas e o cachorro

-- "Quem mora nesta casa?"
Perguntei numa tarde de agosto de 1997 ao aposentado Gentil Prata, pai do misto de cozinheiro e berranteiro Adelino Prata, o afamado Sarará.
-- "Eu, Deus, as galinhas e o cachorro".
Assim respondeu aos 84 anos o velho comissário de comitivas boiadeiras, nascido em São Francisco de Sales, MG, filho de José Prata e Maria Francisca Prata. Do signo de Touro, era morador em Barretos desde 1953. A casa em questão ficava na rua 38, entre as avenidas 31 e 33, na Vila Baroni.
Durante mais de 40 anos Gentil Prata foi comissário de comitiva. Cuidadoso, escolhia “a dedo” os seus contratados para transportar boiada pelos rincões brasileiros. Havia muito peão “amolante”, que gostava de confusão, encrenqueiro, enjoado, reclamador, queixoso de tudo....
-- “Se o cozinheiro lhe oferecia uma canequinha de pinga ele queria duas. Se dava duas, pedia três. Recebia três, desejava a garrafa....”
Vindo de Minas Gerais, o comissário mudou-se para Paulo de Faria, SP, em 1933. Naquela época, trabalhava como peão, mas aos poucos foi comprando uns “burrinhos” até formar sua própria comitiva. Buscava gado no Centro Oeste, trazendo-o para “engorda” em Icem, SP, onde havia muita invernada. Depois, os animais seguiam para Barretos, onde eram abatidos no Frigorífico Anglo, Charqueadas Minerva e Bandeirante.
Gentil Prata contou que cerca ocasião vinha trazendo uma boiada de Rondonópolis, MT, para Riolândia, SP. Eram 1.200 cabeças de propriedade de Fiíco Ribeiro, pai do ex-prefeito barretense Ari Ribeiro de Mendonça. Na culatra (final da boiada) estavam Belmirão e Santo. No trajeto, se desentenderam. Um peão não conversava com o outro. Estavam de mal. O pouso tinha acontecido na currutela (vilarejo menor que cidade) de Santo Antonio, perto de Três Lagoas, MS. A certa altura da marcha, enquanto o comissário contava os bois, Santo resolveu ir até Belmirão. Sentindo-se provocado, o culatreiro esbravejou:
-- “Aonde ocê vai, nêgo sem-vergonha, Fio da Puta???”
-- “Fio da Puta é ocê!”
Foi o que respondeu Santo imediatamente.
-- “Entonce ocê não vai mais pro Barreto. Eu vô ti matá, disgraçado!...”
Assim que gritou, Belmirão partiu para cima de Santo. Amarelado, ele pisou quente, meteu a espora na mula, que escoiceava. O animal passou perto de um precipício, esbarrancando-o.
-- “Se cai lá em baixo, morre na certa!”
Advertiu com firmeza Gentil Prata.
Porém, o fujão conseguiu bater em retirada, escapando de seu perseguidor. E a viagem continuou, sem os dois trocarem palavra ou olhar. Entregue a boiada, o comissário pagou-os em Barretos. No outro dia, encontrou-os juntos, bebendo cerveja no Café Goiano. Amizade refeita...

 
(a história continua na próxima postagem)

Publicado originalmente no jornal O Diário, edição de 19 de agosto de 1997, com o título “Gentil Prata no tempo das comitivas”.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Há mais de 36 anos acontecia o casório de Fifurfino Pixaxau e Dores dos Prazeres

-- O sinhô Fifurfino Pixaxau de Oliveira Pinto aceita casá com a sinhorita Rosinha Dores dos Prazeres?

Depois dos “sims” convenientes e de todos os conformes do casamento caipira a dança da quadrilha animou a Praça, lotada de gente. Era mais uma festa junina da Comunidade de Jovens Cristãos da Paróquia. O evento constava da programação da quermesse que visava arrecadar fundos para as obras do atual Santuário de São Benedito, em Barretos.
Os noivos do casório eram o José Maria de Almeida, o Juca, radialista outrora conhecido na cidade, e Maria José. O Zé Maria é afamado apicultor em Goiás. Hoje o casal mora em Goiânia e tem até netos. 
O “vigário” que sacramentou o “enlástico matrimoniar” era o “Coroa”. Dedé, Paulo Borges, Nininho, Hélio Diamantino, entre outros, foram os padrinhos na “cerimonha”. Também entraram na dança, Ana Lucia e Cristina Borges, Toninho do Sambão, Kiko, Fatinha, Maria Amália, João Luiz e José Luiz Polizelli, Tião Vilaça, Carlinhos, entre tantos.
A lembrança é de 1974. Bons tempos, aqueles.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O destemido peão Zé da Prata

Beirando a linha férrea, lá pelos lados onde hoje se localiza o bairro Alvorada, a peonada tangia uma boiada. Eram 1.300 cabeças que vinham da Fazenda Posse. A propriedade ficava perto da Água Doce, hoje, Icem. A marcha durava alguns dias. O destino era o abate no Frigorífico Anglo, em Barretos. À frente da manada estava o ponteiro Zé da Prata, destemido peão de boiadeiro e domador. No trajeto pensava:
--“Está chegando a hora de enfrentarmos aquele barrão branco”.
E lembrava dos “baitas” barrancos, já imaginando que algum animal poderia ficar atolado. Referia-se à passagem do córrego Aleixo, próximo onde hoje está instalado o supermercado Compre Bem.
De repente, soa o apito do trem. Lá vinha a locomotiva da Companhia Paulista puxando alguns vagões de passageiros. O destino era as estações de Alberto Moreira e Colômbia. A máquina estava a todo vapor. Os peões ficaram alerta. O ponteiro tocou no berrante o sinal de advertência. À medida que se aproximava o encontro do “bicho” com os animais, a tensão ia aumentando. Os passageiros, percebendo a boiada, corriam à janela para ver o gado. Alguns acenavam. Balançavam jornais, panos.... Em dado momento, o susto....
A boiada espantou-se. Estourou. Virou para trás e desembestou. Os peões que tocavam o gado abriram passagem. Encostaram-se à beira da cerca e deixaram a manada passar. Ao redor, o arranha-gato dava medo. O atropelo era grande. O barulho infernal. A poeira levantava. O perigo era enorme. Não havia cerca, barranco ou grito que parasse o rebanho. Uma correria impetuosa. Os animais estavam incontroláveis. O desastre, previsível.
Zé da Prata, que ia à frente da boiada, ao ver a cena, não titubeou. Cutucou a mula e saiu vazado. Cortando caminhos. Corajoso, queria tentar cercar a manada, embora isso fosse função dos culatreiros. Como os companheiros não tomaram iniciativa, o ponteiro não esperou. Acostumado com o caminho, sabia onde tentaria barrar os animais.
Na subida do Ponto de Pouso São Domingos (atualmente Via das Comitivas, que liga a cidade ao Parque do Peão), Zé da Prata parou a mulinha. Imediatamente, saltou da montaria. Tirou a capa da cabeça do arreio. Começou a rodá-la. Assustados, os bois foram parando. Alguns caíram de prancha. Davam trombada uns com os outros. Enquanto ia convencendo os quadrúpedes a parar, os companheiros foram chegando para ajudar. Controlado, o gado prosseguiu viagem, Mas o sufoco foi grande.
O taurino Zé da Prata nasceu em Barretos a 9 de maio de 1925. Os pais Honorato Alves Faria e Maria da Conceição Figueira batizaram-no José Honorato. Aos 9 anos de idade começou a lida campestre. Ficou afamado como domador de burros e peão de boiadeiro. De 1948 até 1963 trabalhou nas fazendas da Companhia Anglo. Em 1952, contraiu núpcias com dona Guiomar Oliveira Faria. O casal teve filhos e netos. Professou a religião católica e torcia para o São Paulo Futebol Clube.
Segundo o peão, a última venda que havia para os lados do São Domingos era da Maria Martins. Perto onde hoje se encontra a União dos Empregados no Comércio havia um pasto de aluguel do Chico Carboni. Ali a peonada soltava a tropa. Os animais matavam a sede num poção d’água. O rancho de dormir era abrigo garantido para o descanso dos estradeiros.
Zé da Prata participou várias vezes do desfile típico da Festa do Peão de Boiadeiro. Peão arrojado, amansador audacioso, enfrentou inúmeros desafios no estradão. Fez viagem que durou 107 dias.
Proseei com Zé da Prata em agosto de 1999 quando ele já estava com 74 anos de idade. Aposentado, ficava sentado num banquinho defronte a casa que morava, na avenida 57, no Jardim São Paulo, ao lado da Vila Marília. Gostava de conversar sobre o seu passado, mesmo com a memória “ruim”. Garantia que não tinha saudades dos tempos de outrora. “Fiz o que tive vontade de fazer. Fiz rolo que dá medo”.
Foi minha última conversa com o velho peão. Tempos depois, fiquei sabendo que falecera.


-- Publicado originalmente no jornal O Diário, edição de 24 de agosto de 1999.

sábado, 6 de novembro de 2010

A praga do padre

Um terrível “furacão” atingiu o município de Barretos, tendo como alvo a próspera vila de Itambé (hoje, Ibitu), deixando-a um montão de ruínas. A tragédia aconteceu no dia 26 de setembro de 1926, por volta das 20 horas. Foram registrados apenas ferimentos leves em alguns moradores, apesar do vendaval acompanhado de descargas elétricas e granizo, deixar o vilarejo semi-destruído. Cessada a intempérie, da Igreja nova restavam em pé apenas a fachada e a parede dos fundos.
Até a pouco tempo, ao lado da via principal do Distrito, junto ao muro da atual escola, estava fincado o que restou da cruz da igreja derrubada. Hoje não há mais indícios da cruz. Nada sobrou.
Os jornais paulistas da época noticiaram o fato com alarde. As vítimas foram socorridas pela Cruz Vermelha Brasileira e por campanhas de várias cidades da vizinhança. Os barretenses também foram mobilizados para ajudar os flagelados. Avaliados os danos, a origem do “furacão” provocou controvérsias. Uns atribuíram a continuação de um ciclone que teria passado pela Flórida, EUA, atravessando o Equador e caído sobre a cidade de Encarnación, no Paraguai. O Observatório Astronômico de São Paulo não conseguiu dar explicações convincentes aos especuladores do vendaval.
Para os velhos itambéenses, o “furacão” foi a conseqüência, a realização de uma praga. Contam que por volta de 1906, estiveram em Itambé, em missão religiosa, dois padres capuchinhos, que se hospedaram na única pensão existente no lugar e que pertencia a Pedro Pereira da Silva, mais conhecido por Pedro Sant’Ana. Este Sant’Ana era um incorrigível brincalhão e não quis perder a oportunidade de fazer uma das suas com os padres. Estando estes de animais arreados para sair da povoação, ele e mais um companheiro arranjaram uns sabugos de milho e uns pedaços de fumo de corda, e meteram tudo isso sob os arreios. Quando um dos padres galgou a sela, o macho, castigado pela dor, saiu aos pinotes, atirando ao chão o bisonho cavaleiro. Descoberta a troça, furiosíssimo, o sacerdote atirou sobre o povoado uma terrível praga, que nunca foi esquecida.
Quando do “furacão” de 1926, arrasando impiedosamente a vila, grande parte dos habitantes de Itambé, atribuíram a causa a maldição do padre, que teria dito entre outras coisas, que o vilarejo nunca conheceria o progresso. Hoje, no Ibitu, tem gente que não gosta de ouvir ou tocar no assunto. Dizem que tal fato é bobagem. O distrito está se desenvolvendo...


Publicado originalmente no Jornal O Diário, edição de 19 de junho de 1988.

domingo, 31 de outubro de 2010

Guarani é campeão da Série B2 do varzeano

O estreante Guarani é o campeão da Série B2 do campeonato varzeano da Liga Barretense de Futebol, temporada 2010, depois de vencer a Igreja Batista Reviver por 3 a 2, em dois jogos consecutivos.
O time campeão também conseguiu o acesso e tem o direito de disputar a Série B1 do campeonato varzeano em 2011.

A Igreja Batista Reviver é a vice-campeã da Série B2 e vai disputar a Série B1 no ano que vem.

sábado, 30 de outubro de 2010

PARTE 4 – Aumenta a fama de santidade

O crime considerado “hediondo” pela imprensa da época chocou e comoveu a cidade. O povo começou a visitar o túmulo da jovem:

-- Uma alma santa!

-- Uma inocente!

-- Uma virgem!

E começaram as orações, romarias, pedidos e promessas junto a tumba. Muita gente buscando lenitivo para seus padecimentos. A fama de santidade de Maria Aparecida começou a correr....
AQUINO JOSÉ NA ENTRADA DA CAPELINHA AO LADO DO CÓRREGO DO GAIÓLA

No Ibitu, outrora Itambé, populares construíram uma capelinha no lugar onde Maria Aparecida foi assassinada. A “igrejinha” está localizada ao lado de um canavial, próxima ao Córrego do Gaióla, na Fazenda Santa Luiza, de propriedade de Silvio Tomazini. Na semana que antecede a finados, havia no interior da edificação, uma cruz de madeira, vasos com flores, uma bíblia velha e duas bandeiras de Santos Reis penduradas ao teto.
INTERIOR DA IGREJINHA CONSTRUÍDA NO LOCAL ONDE A JOVEM FOI ASSASSINADA

Alguns moradores do Ibitu afirmaram que muita gente vai visitar o lugar onde o corpo da “santinha” foi encontrado.

-- Quando o sol forte castiga a roça e o mantimento está perdendo, o povo faz caminhada de penitência pedindo a intercessão de Maria Aparecida. E a chuva vê...., contou dona Luiza Lemos Gonçalves, uma moradora do distrito.

Maria Aparecida Conceição repousa na sepultura perpétua número 741, na quadra 1 Adulto. Defronte ao túmulo, foi construído um local apropriado para a queima de velas. Imagens, flores, terços, quadros, fotos, orações.... são deixados em sua tumba como lembranças de promessas. A busca de proteção, milagres e graças, atrai uma verdadeira romaria de devotos, principalmente às segundas-feiras da Quaresma e no Dia de Finados.
TÚMULO DE MARIA APARECIDA CONCEIÇÃO NO CEMITÉRIO MUNICIPAL  DE BARRETOS

4ª e última parte de reportagem publicada originalmente no Jornal O Diário, edição de 10 de março de 1991, com o título “Maria Aparecida Conceição: a santinha de Itambé”.

PARTE 3 – O assassino foi pra Casa de Detenção

O baiano Antonio Pires Cordeiro estava amasiado com a mãe de Maria Aparecida e trabalhava para José Neves Paixão, cuja família lhe dedicava muita estima.

-- Ele era muito trabalhador....., garantiu Doca.

Em outubro de 1942, o juiz Washington de Barros Monteiro determinou que o preso fosse conduzido sob escolta a Casa de Detenção de São Paulo.

Segundo Doca, na Casa de Detenção, Antonio Pires Cordeiro aprendeu e tornou-se um carpinteiro talentoso, gozando inclusive de certas regalias em virtude do bom comportamento. Seu ex-patrão sempre o visitava, insistindo para que ele retornasse a Barretos quando saísse da prisão. O detento sempre declinou o convite.

Ainda não se sabe o destino de Antonio Pires Cordeiro, bem como de Josefa da Conceição e sua filha Isaura Santana. Após o crime, a mãe e a irmã se mudaram de Itambé, não dando mais notícias.


3ª parte de reportagem publicada originalmente no Jornal O Diário, edição de 10 de março de 1991, com o título “Maria Aparecida Conceição: a santinha de Itambé”.

PARTE 2: Tirada a algema, o sangue jorrou

O corpo de Maria Aparecida Conceição foi conduzido até a Cadeia de Itambé (atualmente Ibitu) – onde hoje há um poço artesiano – sendo colocado numa mesa à espera da autoridade policial de Barretos.

-- Na sala onde o corpo ficou, pingava sangue vivo, formando uma poça que nunca secou. Muita gente não acredita, mas mesmo passado algum tempo, quando lavavam o piso da Cadeia, saía sangue vivo...., contou Abília Neves Paixão, a Doca, entrevistada aos 65 anos. Ela lembrou que na época do crime tinha 17 anos e foi uma das pessoas que encontraram o cadáver.

O corpo foi trasladado para Barretos num caminhão. Na capela do cemitério municipal, ficou à espera do legista. Muitos curiosos se aglomeravam para ver o cadáver.

O então funcionário municipal Sebastião Ferreira da Silva lembrou que o sangue continuava a pingar do corpo da jovem, sem talhar. Segundo ele, quando o médico chegou, não quis retirar a faca que ainda estava cravada no cadáver, pedindo que o assassino fosse trazido para efetuar tal operação.

-- Quando tiraram a algema de um dos pulsos do criminoso, o sangue jorrou do corpo da moça...., contou Sebastião Ferreira da Silva.

-- Ele deu a volta em torno da pedra e, de cabeça baixa, puxou a faca. O sangue correu na lâmina. Então, o delegado mandou retirá-lo rapidamente do local...., contou.

O ex-funcionário municipal recordou que Maria Aparecida foi enterrada com vestido branco, num caixão também branco. Um fato impressionou profundamente Sebastião Ferreira da Silva:

-- Quando peguei a morta para colocá-la no caixão, ela abriu os olhos e a boca. Parecia que queria dizer alguma coisa. Então eu disse: “pode falar”. Mas a moça não disse nada. Porém. Sua expressão me marcou para sempre.


2ª parte de reportagem publicada originalmente no Jornal O Diário, edição de 10 de março de 1991, sob o título “Maria Aparecida Conceição, a santinha de Itambé”.

PARTE 1: Maria Aparecida Conceição, a santinha do Ibitu

Um homem entrou na venda de José Neves, no Itambé, às 20 horas, daquele 10 de março de 1942. Tinha a roupa manchada de sangue.

-- Cometi uma arte e quero me entregar.... – disse.

-- Mas que arte você fez?

-- Vá você mesmo ver, perto de um pequeno córrego próximo da vila, pouco acima do arrozal. Lá está o que fiz.

Eduardo Borsato, o subdelegado de Itambé, o farmacêutico Reinaldo Pereira e Pascola Beraldi foram ao local indicado. Chegando, viram muita gente cercando o corpo de uma jovem de 16 anos. Foi morta com um tiro e várias facadas. A faca ainda estava cravada do lado direito. A mãe da jovem, Josefa da Conceição, gritava:

-- O assassino é o Antonio!....

Antes de matar a moça, Antonio Pires Cordeiro a encontrou a caminho junto com a sua irmã Isaura Santana, de 13 anos. A família havia se mudado para a vila e as jovens iam buscar as galinhas que já estavam no puleiro quando escureceu.

-- Então você não quer casar comigo, está me tapeando há muito tempo, -- disse ameaçador aquele lavrador, baiano de Juciabi, de 32 anos.

Não ouviu a resposta abafada da moça, dizendo “sim”. Ele a derrubou e lhe deu um tiro e as facadas.

Para escapar, a irmã da vítima refugiou-se num brejo, atolando no meio das taboas.


 
1ª parte de reportagem publicada originalmente no Jornal O Diário, edição de 10 de março de 1991, com o título "Maria Aparecida Conceição, a santinha de Itambé".

domingo, 17 de outubro de 2010

Gado impulsionou economia da região

Com a realização da 1ª Exposição Regional de Animais de Barretos e a inauguração do Recinto “Paulo de Lima Corrêa”, tomou impulso a comercialização de gado em Barretos. As vendas durante a Exposição superaram Cr$ 3 milhões. Muitos outros negócios foram iniciados durante o evento.

Segundo a imprensa da época, José Amêndola Neto, o Zequinha Amêndola, teria recusado vender a elegante “Penicilina” por Cr$ 200 mil, animal que ainda não tinha 12 meses de idade.

Mamed Mussi deixou de vender “Fidalgo”, a maior atração da Exposição, por Cr$ 1,4 milhão. Contudo, o criador barretense Nemércio Vilele Lemos vendeu ao pecuarista Oliveira Neves, de Belo Horizonte, 320 vacas por Cr$ 6,4 milhões.

Durante o período da Exposição, foi abatida no Frigorífico Anglo, uma boiada com 450 cabeças com peso médio de 20 arrobas. A boiada era de propriedade de Raul Dahas de Carvalho, conhecido pecuarista barretense.

Nos primeiros 5 meses de 1945, foram abatidos em Barretos 59.181 cabeças de gado e 1.345 suínos. O movimento de embarque de bovinos em Barretos, pela Companhia Paulista, somou 76.547 cabeças no mesmo período. Outros meio de transporte não eram computados.

- Publicado inicialmente no jornal Rural do Vale, edição de 15 a 30 de abril de 1995.

Exposição marca inauguração de Recinto em 1945

A 1ª Exposição Regional de Animais de Barretos aconteceu nos dias 17,18 e 19 de março de 1945, com a inauguração do Recinto Paulo de Lima Corrêa. A mostra foi organizada pela então Associação dos Pecuaristas do Vale do Rio Grande, hoje Sindicato Rural. O evento teve o patrocínio do Governo do Estado.

Na época, a “Associação” tinha como presidente Raul dos Santos. O vice era Sandoval Coimbra e o secretário geral, Jarbas Pinheiro Landim. Os secretários eram Tomaz de Almeida e Lourival Ribeiro de Mendonça. Os tesoureiros eram Joaquim Alves Franco Filho e Aramis Teodoro de Oliveira. O prefeito de Barretos era Fábio Junqueira Franco.

A inauguração oficial da Exposição e do Recinto aconteceu no dia 18 de março, às 15 horas. Entre as autoridades que prestigiaram o evento, os destaques foram Fernando Costa, interventor federal no Estado; professor Melo Morais, secretário da agricultura; general Luiz Gaudie Ley, comandante da Força Policial do Estado; e Iris Meinberg, presidente da União das Associações Agro Pecuárias do Brasil Central.

A 1ª Exposição movimentou a região. Barretos recebeu cerca de 5 mil visitantes, segundo avaliação do jornal “Correio de Barretos”, em matéria do jornalista Ruy Menezes. A cidade nunca tinha visto até então um número tão grande de automóveis. Mais de 2 mil carros circulavam pelas ruas de terra, fato extraordinário em 1945.

Os maiores pecuaristas do País compareceram ao evento e muitas festas aconteceram nas sedes das fazendas das imediações e nas casas dos grandes nomes da época. A corporação musical da Guarda Civil do Estado de São Paulo abrilhantou a Exposição.

Foram expostos animais das raças Gir, Guzerá, Nelore, Indusbrasil, Raças Holandesas e Nacionais. Várias provas hípicas foram realizadas. Havia ainda a participação de eqüídeos, ovinos e caprinos em exposição. A premiação aconteceu no dia 19 de março no Grêmio Literário e Recreativo, com a entrega de taças, troféus e prêmios em dinheiro.

O campeão absoluto da 1ª Exposição Regional de Animais de Barretos foi “Fidalgo”, do criador Mamed Mussi, na categoria Gir Macho com 4 dentes. No evento foram gastos mais de Cr$ 156 mil. Os organizadores realizaram uma vaquinha, através de livro de ouro, ajudar na cobertura das despesas. Entidades assistenciais barretenses foram beneficiadas com a doação de colchões e travesseiros que serviram aos hóspedes da Exposição.

- Publicado inicialmente no jornal Rural do Vale, edição de 15 a 30 de abril de 1995

sábado, 16 de outubro de 2010

Beijinho e Negrão fizeram sucesso na capital

Pouca gente sabe que a afamada dupla barretense Zé Beijinho e Benedicto Adão esteve nos anos 30 em São Paulo, revelando aos paulistanos as belezas até então ignoradas da música cabocla brasileira. Lá na capital, a dupla cantou no rádio, nas redações de jornais e chegou a gravar discos.

Agradou tanto, que o “Diário Nacional” do dia 19 de janeiro de 1930, publicou uma crônica a propósito dessas apresentações. José Alves de Souza, o “Beijinho”, e Benedicto Adão, o “Negrão”, eram cantadores do sertão que Cornélio Pires descobriu em Barretos, destacava o jornal. E eles cantaram em São Paulo, numa alusão a encalhada produção de café paulista:

“Quagi todos os fazendêro

Andava de Chevrolé;

Já estão andando a cavalo

Com a baxa do café”.

Entre tantos outros pedidos, lascaram “Os canaro”:

“Moço e moça quando casa

Sempre casa de má fé

Os trabaio vão chegando

A botina aperta nos pé”.

E pelo que consta, a dupla agradou aos ouvidos da época. Tanto, que ousaram cantar um verso muito erótico para aqueles tempos:

"Eu fui nascido em Barretos,

Criado em Araraquara,

Moça que está doente,

Chupando meu beiço sara!...."



Publicado originalmente no Jornal O Diário de Barretos, edição de 10 de julho de 1988.




sexta-feira, 15 de outubro de 2010

CAPITULO 5 – Prá sacolejar o pelo

Depois de uns dez noivados, o coração de Zé Gonçalves foi conquistado pela jovem Luiza Lemos. Embora muita gente duvidasse do casamento, há 68 anos foram pedir a benção ao vigário e “passar o preto no branco”. Vieram uma porção de filhos, netos, bisnetos.... No Natal e Ano Novo, quando a família se reúne, é um povaréu alegre no lar. Nascido na Vila Nova, em Barretos, e radicado no Ibitu desde 1941, o ex-subdelegado tem 87 anos. “Mas ta firme e forte”, segundo o fotógrafo Pancho, que esteve lá proseando e tomando um “goró”, dias destes.

Zé Gonçalves acredita no progresso de Ibitu, que mudou muito. Antigamente havia muita casa de pau a pique, agora todas são de alvenaria. O povoado tem iluminação, água, asfalto, postinho de saúde e de polícia. E algumas reclamações:

-- Falta supermercado, farmácia e padaria.

De acordo com Zé Gonçalves o patrimônio de Ibitu atinge 45 alqueires. Porém, a área ocupada é menor.

-- Os fazendeiros tomaram conta de tudo.

Zé Gonçalves é compositor nato e guarda tudo na memória, sem nenhum registro escrito. Folião de Reis desde os 7 anos, garante que não para com a devoção. As festas de Igreja continuam em sua memória. Não perde uma quermesse. Sorrindo, confessou que aprecia uma dança gostosa:

-- A tal lambada!....

E arrematou:

-- Gosto de dançar forró com a patroa. É pra sacolejar o pelo.



Quinta e última parte de texto publicado originalmente no Jornal O Diário de Barretos, edição de 27 de janeiro de 1991, sob o título: “Zé Gonçalves, um xerife no Ibitu”

CAPITULO 4 – Até galo mudou de terreiro

Zé Gonçalves lembrou a história do furacão que arrasou o lugarejo em 1926, quando Ibitu era conhecido por Itambé. O vento e a chuva de pedra derrubaram tudo. Não ficou um telhado. O povo se escondeu debaixo das mesas e camas.

-- Até galo mudou de terreiro!, exclamou.

E logo em seguida, ressaltou:

-- Mas marido não mudou de terreiro.

Segundo Zé Gonçalves, a chuva de granizo acabou atingindo cerca de um metro de altura nos acostamentos da estrada. A Igreja foi destruída. Só restou apenas ruína. Apenas uma velha cruz de madeira lembrava o templo onde hoje está instalada a escola do Distrito.

-- Antigamente, Ibitu tinha mais movimento, pois todo mundo tocava lavoura e gerava mais empregos. Havia até depósito de algodão.

E recordou com saudade dos tempos áureos do lugar que já teve farmácia, padaria, cinema mudo e banda de música.

-- Ibitu tinha a melhor banda de música da região. Uma vez conquistou o segundo lugar num concurso em que disputaram ainda Barretos, Jaboticabal, Olímpia e Bebedouro. Jaboticabal foi a campeã.



Quarta parte de texto publicado originalmente no Jornal O Diário de Barretos, edição de 27 de janeiro de 1991, sob o título: “Zé Gonçalves, um xerife no Ibitu”

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

CAPITULO 3 – Dizem que o rapaz não tinha o “aparelho”

Zé Gonçalves mostrou duas cruzes, uma ao lado da outra, nas terras de Maria Neves. E contou uma tragédia dos tempos que ainda era menino

-- Um casal de namorados se suicidou neste local. O rapaz e a moça se amavam muito. Ele era sírio e ela filha de uma família daqui, que eu não lembro o nome. Foram encontrados mortos. Haviam se matado. Os dois estavam atados pelas mãos com uma gravata, num sinal de união. Parece que o moço deu um tiro no ouvido da moça e depois disparou contra sua própria cabeça. A história deu muito que falar. A vila ficou alvoroçada. Dizem que o rapaz não tinha o “aparelho”. Era inutilizado. Por isso, fizeram um pacto de morte.

A propriedade de Zé Gonçalves atinge cerca de dois quarteirões.

-- “Aqui eu tenho um pouquinho de tudo. Planto café, milho, arroz, laranja e mandioca. Quando preciso de uns cobres, vendo pros marreteiros.

Na chácara Gonçalves, a criação de porcos é destinada somente para o gasto. Há bastante galinha espalhada pelo terreiro. Não tem gado. Contudo, um animal é considerado de primeira linha:

-- Tenho uma mula que é um colosso. Seu nome é Campinas.



Terceira parte de texto publicado originalmente no Jornal O Diário de Barretos, edição de 27 de janeiro de 1991, sob o título: “Zé Gonçalves, um xerife no Ibitu”

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

CAPITULO 2 – Aquieta senão o pau quebra

Um dia, dona Erminda mandou o subdelegado Zé Gonçalves na venda. Ela não gostou das atitudes do soldado Jonas. O praça pegava o revolver e misturava a pinga num copo, diante dos olhares de menores. A mulher pediu providências para retirar os meninos do estabelecimento, pois não podiam ver mau exemplo.

-- Quando cheguei à venda, não entrei. Fiquei do lado de fora. Chamei os meninos e pedi que se retirassem. Disse que suas mães estavam chamando. Os garotos obedeceram. Porém, o soldado achou minha atitude uma desfeita e veio ao meu encontro.

-- Vou te dar um coro de gravata!, afirmava.

-- Quando ele pulou pra cima de mim, saltei de banda. Num relance, meti o pé no rim dele. Na hora o soldado caiu quebrado. Quando fui pra pisar em riba, o povo que juntou em roda não deixou.

-- Não ta vendo que ele ta quebrado, disseram.

-- Pois é! Eu quebrei a clavícula do soldado. Passado o entrevero, telefonei pra Barretos e contei o caso pro delegado. O doutor veio no Ibitu e achou que eu tinha agido certo.

No lugar onde havia as ruínas da cadeia do Ibitu a Prefeitura de Barretos perfurou um Poço Artesiano que abastece o Distrito. Há muito tempo não existe mais subdelegado no lugarejo.

-- Agora não tem mais isso. Os responsáveis pela tranqüilidade de Ibitu somos nós. Quando aparece alguém de fora querendo bagunçar o coreto o povo avisa: “aquieta senão o pau quebra”.



Segunda parte de texto publicado originalmente no Jornal O Diário de Barretos, edição de 27 de janeiro de 1991, sob o título: “Zé Gonçalves, um xerife no Ibitu”

CAPITULO 1 – Zé Gonçalves, um xerife no Ibitu

-- Zé Gonçalves vem aí!...

Estava dado o alerta à freguesia da venda.

-- Olha o bate pau do Ibitu!...

Assim os moradores da vila identificavam o subdelegado. Através de uma espécie de plebiscito haviam escolhido o representante do lugarejo perante a lei. Na década de 50, quando a autoridade da cidade quis nomear o novo subdelegado do Ibitu, o povo falou:

-- Ponha o Zé Gonçalves que é um sujeito de muito respeito. Ele diverte bem com todo mundo e dá respeito.

A partir de então, o novo “xerife” recebeu ordem para averiguar todas as queixas. Agia como espécie de Juiz das Pequenas Causas, contornando e resolvendo a desinteligências. A maioria das ocorrências era considerada corriqueira. De vez em quando a Cadeia hospedava alguns bêbados, que ficavam ali até curar o porre. Os soldados que trabalhavam sob a orientação do subdelegado ficavam numa casa perto do xilindró.

Durante o período de 8 anos em que permaneceu no cargo de subdelegado, Zé Gonçalves não registrou nenhum crime. Porém, o esporte era cenário para algumas desavenças.

-- Antigamente dava muita briga no futebol. Aliás, até hoje sai algum quebra-pau e catiripapos. As maiores rivalidades são com os times da Cachoeira e da Lagoinha.

Certa vez aconteceu um acidente pessoal e fatal:

-- Eu ainda morava na fazenda do João Estulano. Um rapaz saiu de trator carregando uma espingarda pra matar codorna. Ao passar pelo pasto, uma das rodas caiu numa cisterna velha, coberta pelo capim. Com o impacto, a arma disparou e o tiro pegou próximo ao umbigo do sujeito. O moço não resistiu aos ferimentos e faleceu.



Primeira parte de texto publicado originalmente no Jornal O Diário de Barretos, edição de 27 de janeiro de 1991, sob o título: “Zé Gonçalves, um xerife no Ibitu”

sábado, 9 de outubro de 2010

O santo de Barretos

O calendário assinalava 1908 ou 1909. Muitas pessoas passaram a abandonar as roças, os lares, para seguir um “santo” – de carne e osso – que aparecera na região da Lagoinha.

São Francisco Miotti era o “santo”. E ninguém sabia de onde vinha aquele italiano de baixa estatura, com calvície incipiente, cabelos longos, bigode espesso e barba comprida.

Conta Alcebíades Menezes que “o santo” fazia vibrações ininteligíveis, misturando um dialeto italiano com algumas expressões em péssimo português.

E rezava extensas ladainhas ao pé de cruzes, obrigatoriamente de cedro tosco, que ia plantando por onde passava.

Carregava ainda uma forma de folha de Flandres, muito enferrujada, em que moldava enormes velas de cera virgem, com que iluminava o seu culto que estendia até altas horas da noite.

A fama de milagres do “santo” começou a atrair muita gente.

As autoridades locais temiam pela “perturbação da ordem”, principalmente quando alguém contestasse a santidade do estranho indivíduo. E não houve alternativa senão pedir apoio à polícia estadual.

A Força Pública mandou então para Barretos uma “captura” formada por uns dez ou doze soldados bem armados e municiados, comandados pelo alferes João Antonio de Oliveira, o famoso tenente Galinha.

Ao saber da identidade do comandante da expedição, a multidão que estava acampada com o “santo” numa fazenda próxima de Olímpia, debandou-se.

A “captura” deteve o “santo” e recolheu-o na cadeia de Olímpia. Segundo Roque Félix, que conheceu São Francisco Miotti no xadrez, levado pelas mãos do tenente Galinha, um grupo de velhas acompanhava à pequena distância a movimentação na prisão.

Dos objetos arrecadados de São Francisco Miotti, fizeram um leilão. Com a renda, compraram o sino que serviu na cadeia de Olímpia durante muito tempo.

As velas de cera virgem, usadas pelo “santo” no culto, eram guardadas como lembranças.

O tenente Galinha levou São Francisco Miotti para a capital paulista. Segundo Alcebíades Menezes, o “santo” foi internado no hospício de Juqueri, onde terminou seus dias como excelente jardineiro. A imprensa paulistana da época o chamava de o “Santo de Barretos”.



Publicado originalmente no jornal O Diário de Barretos, edição de 31 de março de 1993