PITA FOGO BARRETOS

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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O destemido peão Zé da Prata

Beirando a linha férrea, lá pelos lados onde hoje se localiza o bairro Alvorada, a peonada tangia uma boiada. Eram 1.300 cabeças que vinham da Fazenda Posse. A propriedade ficava perto da Água Doce, hoje, Icem. A marcha durava alguns dias. O destino era o abate no Frigorífico Anglo, em Barretos. À frente da manada estava o ponteiro Zé da Prata, destemido peão de boiadeiro e domador. No trajeto pensava:
--“Está chegando a hora de enfrentarmos aquele barrão branco”.
E lembrava dos “baitas” barrancos, já imaginando que algum animal poderia ficar atolado. Referia-se à passagem do córrego Aleixo, próximo onde hoje está instalado o supermercado Compre Bem.
De repente, soa o apito do trem. Lá vinha a locomotiva da Companhia Paulista puxando alguns vagões de passageiros. O destino era as estações de Alberto Moreira e Colômbia. A máquina estava a todo vapor. Os peões ficaram alerta. O ponteiro tocou no berrante o sinal de advertência. À medida que se aproximava o encontro do “bicho” com os animais, a tensão ia aumentando. Os passageiros, percebendo a boiada, corriam à janela para ver o gado. Alguns acenavam. Balançavam jornais, panos.... Em dado momento, o susto....
A boiada espantou-se. Estourou. Virou para trás e desembestou. Os peões que tocavam o gado abriram passagem. Encostaram-se à beira da cerca e deixaram a manada passar. Ao redor, o arranha-gato dava medo. O atropelo era grande. O barulho infernal. A poeira levantava. O perigo era enorme. Não havia cerca, barranco ou grito que parasse o rebanho. Uma correria impetuosa. Os animais estavam incontroláveis. O desastre, previsível.
Zé da Prata, que ia à frente da boiada, ao ver a cena, não titubeou. Cutucou a mula e saiu vazado. Cortando caminhos. Corajoso, queria tentar cercar a manada, embora isso fosse função dos culatreiros. Como os companheiros não tomaram iniciativa, o ponteiro não esperou. Acostumado com o caminho, sabia onde tentaria barrar os animais.
Na subida do Ponto de Pouso São Domingos (atualmente Via das Comitivas, que liga a cidade ao Parque do Peão), Zé da Prata parou a mulinha. Imediatamente, saltou da montaria. Tirou a capa da cabeça do arreio. Começou a rodá-la. Assustados, os bois foram parando. Alguns caíram de prancha. Davam trombada uns com os outros. Enquanto ia convencendo os quadrúpedes a parar, os companheiros foram chegando para ajudar. Controlado, o gado prosseguiu viagem, Mas o sufoco foi grande.
O taurino Zé da Prata nasceu em Barretos a 9 de maio de 1925. Os pais Honorato Alves Faria e Maria da Conceição Figueira batizaram-no José Honorato. Aos 9 anos de idade começou a lida campestre. Ficou afamado como domador de burros e peão de boiadeiro. De 1948 até 1963 trabalhou nas fazendas da Companhia Anglo. Em 1952, contraiu núpcias com dona Guiomar Oliveira Faria. O casal teve filhos e netos. Professou a religião católica e torcia para o São Paulo Futebol Clube.
Segundo o peão, a última venda que havia para os lados do São Domingos era da Maria Martins. Perto onde hoje se encontra a União dos Empregados no Comércio havia um pasto de aluguel do Chico Carboni. Ali a peonada soltava a tropa. Os animais matavam a sede num poção d’água. O rancho de dormir era abrigo garantido para o descanso dos estradeiros.
Zé da Prata participou várias vezes do desfile típico da Festa do Peão de Boiadeiro. Peão arrojado, amansador audacioso, enfrentou inúmeros desafios no estradão. Fez viagem que durou 107 dias.
Proseei com Zé da Prata em agosto de 1999 quando ele já estava com 74 anos de idade. Aposentado, ficava sentado num banquinho defronte a casa que morava, na avenida 57, no Jardim São Paulo, ao lado da Vila Marília. Gostava de conversar sobre o seu passado, mesmo com a memória “ruim”. Garantia que não tinha saudades dos tempos de outrora. “Fiz o que tive vontade de fazer. Fiz rolo que dá medo”.
Foi minha última conversa com o velho peão. Tempos depois, fiquei sabendo que falecera.


-- Publicado originalmente no jornal O Diário, edição de 24 de agosto de 1999.

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