PITA FOGO BARRETOS

PITA FOGO BARRETOS

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Salve os três reis santos!

A tradicional Companhia de Reis Santa Joaquina está cumprindo uma maratona de promessas, fazendo visitas em residências, louvações em presépios na cidade e na zona rural. A festa de chegada do grupo está programada para a tarde do dia 15 de janeiro, na Aspum.
É época de aceitar a bandeira de Santos Reis

Palhaço pede licença para a folia adentrar a casa

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Boi soberano é invenção de Izaltino Paula

O sucesso sertanejo “Boi Soberano”, composto por Carreirinho, Izaltino Gonçalves de Paula e Pedro Lopes Oliveira, narra um transporte de boiada em que houve um estouro na entrada da manada em Barretos. Um animal salva o menino que brincava na rua, rebatendo com os chifres os bois que vinham passando, evitando assim que a criança fosse pisoteada.
Há alguns anos entrevistei  Izaltino Gonçalves de Paula, autor da letra, no Ponto de Pouso, no Parque do Peão. Ele me garantiu que o enredo da música era pura invenção, visto que na época que escreveu a letra de “Boi Soberano” nem conhecia Barretos. A primeira gravação foi em 1954, com Zé Carreiro e Carreirinho. Depois vieram outros, como Tião Carreiro e Pardinho. O relojoeiro Izaltino, de Tanabi, já partiu para a outra vida.

Tiao Carreiro e Pardinho -Boi Soberano

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Pixiu: peão e cozinheiro bom de prosa

Um dos mais antigos cozinheiros das comitivas que transportavam gado pelo Brasil afora decidiu encerrar sua participação na queima-do-alho da Festa do Peão. O vencedor da competição culinária de 1995 diz que viu, contrariado, seu prêmio rateado entre os integrantes da comitiva. Passado o incidente, Pixiu, bem-humorado, gosta de lembrar e contar à nova geração “os bons tempos” em que conduzia boiada de fazenda em fazenda até chegar num frigorífico ou charqueada para o abate.
A vida dura da lida do estradão é considerada “folgada” por Pixiu. Acordar pela manhã, fazer um café bem forte para a peonada. Em seguida, arrear o cavalo, colocar o cargueiro no burrão e rumar na frente da boiada. Depois de um tempo de marcha, arranchar, retirar da broaca as panelas, talheres e outros utensílios para preparar o almoço. No cardápio, “Maria Isabel” (também conhecido como arroz de carreteiro), feijão tropeiro e carne assada. Para tirar a poeira da goela uma aguardente de engenho ou a legítima “Barra Grande” de Mato Grosso.
O tempo é curto. A peonada “fila a bóia”. O cozinheiro lava a tralha rapidamente e segue em frente rumo ao ponto de pouso a fim de preparar a janta. O tipo de serviço o mantém um pouco isolado dos companheiros. Não admite reclamações. O argumento é poderoso:
-- “Na estrada não temos tempo de fazer mamadeirinha prá neném, sopinha de macarrão para filhinho querido. Lá em Barretos, a mamãe tem tempo”.
E o reclamante tem que engolir a definição de “bóia”.
-- “Aqui chama-se come calado... e do que tem!...”
Dia destes, um sujeito foi até a residência de Pixiu, na Vila Marília, somente para conferir que em certa ocasião o cozinheiro havia esquecido o berrante num ponto de pouso. Provocado, a resposta foi imediata:
-- “Nunca aconteceu isso!”
Ainda irritado, veio o desabafo:
-- “Onde já se viu?!?...”
Porém, admite ter esquecido a trempe (fogão) “uma única vez...”
Segundo Pixiu, durou mais de 20 dias a viagem da comitiva de Sebastião Rodrigues que levou cerca de 1.200 cabeças até a fazenda na região do Anhembi, em São Paulo, cuja proprietária seria Dona Iaiá. Era 1946, início da carreira do cozinheiro. Tuca Preto fora o corretor da boiada. A volta, até Itirapina, acontecera a cavalo. De lá, até a terra de Chico Barreto, embarcaram no trem da antiga Companhia Paulista.
Assombração, lobisomem, mula-sem-cabeça, come-língua e “outros bichos” nunca foram vistos por Pixiu. Apesar de destemido e valente, era ressabiado com casa velha, preferindo arranchar no tempo, debaixo de uma árvore. Ao garantir que não tinha medo de nada, Pixiu recorda que em certa ocasião esteve numa fazenda de propriedade de Braz de Ávila, em Três Lagoas, MS. No interior da casa, ouvia um “zumzum”, semelhante ao barulho d’água de uma cachoeira. No entanto, no terreiro, não escutava nada.
Outro fato que considera estranho acontecia na antiga chácara da Dona Henriqueta (hoje, bairro da cidade com o nome da ex-proprietária das terras). De acordo com Pixiu, à noite, mesmo com lua clara, tanto no galpão como no terreiro ou no meio do cerrado, os cachorros acuavam e não se via coisa alguma.
-- “Acho que esses lugares eram assombrados”, afirma.
No meio da prosa, Pixiu, também metido a compositor, convida o cunhado Lazinho para um “show” particular. E a dupla caipira apresenta um cururu que retrata a vida do cozinheiro\;
“O meu nome é Laudelino
Natural fui batizado
Na cidade de Barretos
Fui nascido e fui criado.
O meu pai é sitiante
Mora meio arretirado
Foi um caboclo de gosto
E também muito estimado”.
E os versos se sucedem até o arremate:
“Fomos buscar uma boiada
Entre Franca e Batatais
Eram duas comitivas
E também dois capataz.
Agenor e Sebastião
Que prá contar eram os tais
Essa ficou na lembrança
Não esqueço nunca mais...”
Quando entrevistei Pixiu em 1997, ele estava beirando os 76 anos de idade. Agora já completou 89 anos. Nasceu na Fazenda Monte Alegre, em Barretos, sendo registrado Laudelino Marques de Castro. Casado com dona Leonor teve 10 filhos e muitos netos e bisnetos. Funcionário público aposentado, ex-cozinheiro de comitiva, viúvo, mora ainda hoje na rua 38, na Vila Marília.

Publicado originalmente no jornal O Diário, edição de 13 de agosto de 1997.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Dermeval: o "cardeal" dos palcos teatrais recebeu a gratidão dos seus admiradores

Artista, alfaiate, corretor de imóveis, contabilista, colaborador de jornal, radialista, vereador, esportista, Dermeval de Almeida – um verdadeiro “homem de 7 instrumentos” – nasceu em Jaboticabal em 16 de março de 1899, filho de Candido José de Almeida e Olímpia Ferraz de Almeida. Seu pai o registrou a 2 de agosto do mesmo ano, episódio que concedia a Dermeval o direito de receber dois presentes de aniversário por ano.
Dermeval de Almeida veio para Barretos em 1912, indo trabalhar como aprendiz na alfaiataria de Hugo Moni. Em 1921, passou a dedicar-se a contabilidade. A 19 de janeiro de 1935 casou-se com Joana Cesar de Almeida, tendo 5 filhos: Dermeval, Maria Luiza, Paulo Cesar, Roberto e Margarida, que lhe deram netos e bisnetos.
A estréia de Dermeval de Almeida no palco aconteceu em 1922. Convidado por Antonio Baroni, que veio de Campinas para residir em Barretos e montou um corpo cênico na cidade, o estreante começou a carreira com a peça “A Tosca”. Empolgado, propagou o feito aos amigos. Porém, na encenação, fez apenas uma “pontinha”:
-- Antonio?! – chamou um dos personagens.
-- Vossa Excelência me chamou? – respondeu Dermeval.
-- Chamei sim. Leve essa gente para dentro e dê-lhes de comer.
-- Sim. Venham!...
Dermeval de Almeida, então, saiu de cena. No outro dia, os amigos lhe questionaram sobre a sua curta aparição no palco
-- Ora Dermeval! Você não disse que ia trabalhar no teatro?
-- Mas... é só para começar – justificou.
Dermeval de Almeida lembrou da “indumentária apropriada” de sua primeira aparição em cena: “calça curta, meia comprida...” Daí para frente sua carreira não mais parou. Integrou o corpo cênico da UEC. Fez dramas, comédias, atos variados, declamou, serviu de ponto em teatro e circo. Atuou com muita gente conhecida: Ildebrando Araújo, Tibúrcio de Paula, João Falcão, João Rocha, Claudio Baston, Vilma Morais, Inês e Eunice Espíndola, José Expedito Marques, Layer Garcia de Oliveira, Janete Bampa, Luiz Carlos Arutim, Humberto Beviláqua, Ribas Filho, Maria Luzia França Chubacci, Nina, etc....
Trabalhou em inúmeras peças: A Noiva e a Égua, Nhô Manduca, Turibio 39 da Oitava, O Tio Padre, Auto da Compadecida, Os Três Sargentos, Terra Bendita, Rumo Leste a Cardef, A Tosca, A Guerra Mais ou Menos Santa, A Ceia dos Cardeais, entre outras. Contudo, o papel de caipira em “Na Roça” foi o que mais agradou Dermeval de Almeida durante sua carreira artística. Sempre gostou de personagens cômicos. Posteriormente, esses papéis passaram a ser interpretados por João Falcão, que tinha mais jeito para a comicidade, segundo Dermeval.
Não é qualquer ator amador que tem na platéia a aplaudi-lo nomes consagrados como Cacilda Becker e Valmor Chagas, como aconteceu na peça “Rumo Leste a Cardef”. Sua performance nos palcos acabou proporcionando alguns casos pitorescos. Certa ocasião, em Campinas, minutos antes de interpretar o “Auto da Compadecida”, foi confundido com um bispo de verdade, em virtude da caracterização do personagem que representava. Aliás, o “bispo” logo foi promovido. Em 1978, no programa Silvio Santos, no quadro “Cidade x Cidade”, deu a vitória para Barretos contra Marília com sua atuação em “A Ceia dos Cardeais”.
Antes da instalação de emissora de rádio na cidade, Dermeval de Almeida era apresentador do serviço de alto falante da Praça Francisco Barreto, que funcionava embaixo do coreto. Com a inauguração da Rádio Barretos, comandou programa infantil na emissora, ao lado do Maquininha e Luiz Venâncio Diniz. O programa pagava um prêmio em dinheiro para o melhor cantor dominical.
Dono de um português correto, Dermeval de Almeida não se conforma com a linguagem atual do teatro e televisão. E lamentou:
-- Falam: “não te vi”.
Reclamou ainda que hoje em dia dizem muitas bobagens na televisão e no teatro, sob a alegação que os tempos mudaram.
-- Mas eu não mudei, ressaltou.
Aposentado dos palcos e ocupando a cadeira 17 da Academia Barretense de Cultura, Dermeval de Almeida foi homenageado pela Uniart – União dos Artistas Barretenses – no dia 6 de junho de 1992, no Anfiteatro Jorge Andrade, da então Fundação Educacional de Barretos, durante a premiação do 2º Festeart – Festival Estudantil de Teatro. Ele recebeu o Troféu “João Falcão”. Foi o reconhecimento de seus admiradores pela sua contribuição e dedicação ao teatro amador de nossa cidade.

Publicado originalmente no jornal O Diário, edição de 5 de junho de 1992, sob o título Homenagem da Uniart a Dermeval de Almeida.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O caso da aparição da Virgem Maria na cidade na década de 50

Duas reportagens publicadas pelo “Correio de Barretos” em 1956, edições de 19 de agosto e 7 de outubro, repercutiram na cidade. Nelas, o funcionário público José Lúcio dos Santos, o Zé Lúcio, declarava que a Virgem Maria lhe teria aparecido algumas vezes. Nascido em Iporanga, no Vale do Ribeira, interior de São Paulo, a 30 de junho de 1918, veio para Barretos em 1943. Casou-se, teve filhos e netos. Clarinetista, funda em 1959 a Corporação Musical “Imaculada Conceição”, que posteriormente se incorpora a Lira Barretense. No livro “Espiral – História do Desenvolvimento Cultural de Barretos”, Ruy Menezes cita o trabalho do músico.
Quando trabalhava como servente no Grupo Escolar Cel. Almeida Pinto, começou a ter uma visão estranha, de uma moça loura, muito bonita. O “fenômeno” deixava o funcionário muito nervoso, perdendo os sentidos. Preocupado, pediu transferência para o Grupo Escolar da Vila Baroni, pensando que, assim procedendo, as aparições terminariam. Foi transferido de escola. Contudo, a visão continuou.
Zé Lúcio contou que no dia 3 de agosto de 1956, uma segunda-feira, por volta das 10 horas, estava estudando matemática, sentado num banco, no recreio do Grupo da Vila Baroni. Nesta época o servente cursava a 3ª série. A manhã estava fosca, céu nublado, pois chovera na véspera. De repente, sentiu um facho de luz, que clareou as páginas do livro.
Piscando, pelo efeito da claridade nas vistas, Zé Lúcio afirmou que olhando para o poente, vislumbrou no ar, numa altura de 15 metros, mais ou menos, uma figura de mulher, de uns 30 anos de idade. Ele já conhecia a “Senhora”, pois era a mesma que lhe aparecera na Escola Almeida Pinto. Tinha um metro e meio de altura, aproximadamente. Suas roupas eram brancas, mas, de uma alvura singular, todas envoltas em luz ofuscante, claridade essa que mais se acentuava no rosto e cabeça. Atônito, o barretense contou que a aparição lhe falou com uma voz meiga, que jamais esquecerá.
-- “Não tenhas medo, meu filho! Eu sou a Mãe de Jesus!”
Em seguida, a “Senhora” disse que o mundo estava à beira do abismo, pela falta de religião dos homens e por causa de sua grande perversidade. A Virgem pediu que o rosário fosse rezado com mais amor e devoção para que o mundo se livrasse da situação calamitosa em que se encontrava. Disse, ainda, que gostava muito do Brasil e condenou as modas femininas da época.
Zé Lúcio informou que a aparição durou cerca de 15 minutos, retornando posteriormente quando estava na diretoria da escola. Na ocasião, ele chamou a atenção, para o ato, da diretora Ermelinda Schultz Silva. Ouvida pela reportagem do “Correio de Barretos”, a diretora confirmou que, de fato, o servente Zé Lúcio, em sua sala, bradava que estava vendo a Virgem Maria e tanta sinceridade havia em suas palavras e se tratava de um senhor tão sério e distinto, trabalhador e correto, que não tinha ela dúvida em dar-lhe crédito. Sobre o mesmo assunto, o jornal ouviu ainda o diretor da Escola Almeida Pinto, Luiz Castanho Filho, onde antes trabalhava o servente. O professor fez as melhores referências sobre Zé Lúcio, não descrendo da possibilidade da aparição.
A 3 de outubro de 1946, por volta das 10h40, quando vinha de bicicleta do Grupo da Vila Baroni, ao chegar à rua asfaltada, viu em sua frente, novamente, o conhecido clarão que precede, sempre, as aparições. Em seguida, surgiu a Mãe do Céu, a uns 3 metros de altura do chão, resplandecente como de costume.
A Virgem falou-lhe então, que, agora que ele havia perdido o medo, iria aparecer-lhe sempre. Recomendou a prática da castidade, muita oração, penitência, respeito pelo templo e pelos mandamentos da Lei de Deus. Ao dizer a “Senhora” que muita gente na cidade não dava crédito às aparições, foi informado por Ela que, em breve, daria prova concreta da realidade das visões, a fim de afastar quaisquer dúvidas.
Quanto a um pedido antigo, que Zé Lúcio fizera à Virgem para zelar pelo seu filho Paulinho de Tarso, que estava no seminário, veio uma resposta contundente. Garantiu-lhe Ela que faria do seminarista um digno sacerdote.
Passados 36 anos, entrevistei Zé Lúcio, que mantinha a convicção da autenticidade das aparições, descartando a hipótese de ilusão, alucinação, sonho ou fantasia. As provas concretas prometidas pela Virgem não aconteceram porque Ela não apareceu mais, justificou. Alegou que não sabe explicar o motivo da ausência da “Senhora”, mas espera um retorno das aparições.
O filho de Zé Lúcio, Paulo de Tarso, ficou uns 3 anos num Seminário em Campinas e não se tornou padre, conforme prometera a Virgem. Em 1992 era gerente de uma agência bancária. Zé Lúcio garantiu que a Mãe de Deus não falhou na promessa. Alegou que quem atrapalhou a carreira sacerdotal do filho foi um vigário da época. O padre teria enviado uma carta ao reitor do seminário, recriminando a conduta do jovem durante as férias. O motivo apresentado teria sido “os espíritas” da família.
Após as aparições, Zé Lúcio ficou muito “reservado”. Atendeu ao conselho do padre Paulo Campos Dall’Orto que teria dito para ele não procurar ninguém para falar sobre o assunto, evitando principalmente o assédio dos espíritas. Garantiu que nunca procurou ou foi procurado por qualquer pesquisador, psicólogo, psiquiatra, parapsicólogo, para o estudo das aparições.
Quando o entrevistei, no quarto da residência de Zé Lúcio havia um oratório com uma imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição de quase meio metro de altura. Ali, o vidente mantinha uma vela acesa e rezava terços diariamente. Com orgulho, mostra um cartão enviado de Portugal com a foto da Irmã Lúcia – vidente de Fátima, na época ainda viva – com o Papa João Paulo II e os retratos de Jacinto e Francisca. Zé Lúcio mostrou cópia de carta enviada a Irmã Lúcia em maio de 1990, respondida a 5 de julho do mesmo ano.
Zé Lúcio acredita que tem o poder de cura, mas não o exerce temendo ser processado pelos médicos pela prática de “curandeirismo”. Contudo, atende a muitos pedidos de oração, enquanto se abstém do dom da “imposição das mãos”. Revelou que já contou sobre as aparições para o bispo Dom Pedro Fré, para o vigário da Catedral, padre Cesar Luzio, e para o padre Gabriel Correr, seu confessor.
A reportagem do “Correio de Barretos” de 7 de outubro de 1956, classifica Zé Lucio como homem direito, católico, chefe de família, honrado, cumpridor de seus deveres, normal, sadio, cuja palavra deve merecer a consideração geral. Argumenta que tendo a história dessas aparições registradas já tantos fatos comprovados, como Fátima, Guadalupe, Lourdes e outras, por que descrer que somente o caso em tela é que não pode ser autêntico?
O jornalista lembra que “para os incrédulos, entretanto, há agora, a promessa de Nossa Senhora, de que, em breve, dará provas concretas da veracidade das visões de Zé Lúcio. Resta-lhes, apenas, nessas condições, esperar”.
Em 1992, havia passados 36 anos e a espera continuava... e pelo jeito prossegue até hoje.


Publicado originalmente no jornal O Diário, edição de 25 de outubro de 1992.

sábado, 11 de dezembro de 2010

O “Come-língua” assustou o povaréu

A notícia correu em Barretos por volta de 1936 e deixou muita gente assustada. Nos sertões goianos, estavam aparecendo rezes mortas, sem a língua. Não havia sinal de doença, nem de luta com animais ferozes. E a imaginação popular chegou a criar um monstro, o “Come-Língua”.
Com o decorrer do tempo, o “bicho” teria passado para Minas Gerais, atacando várias cidades, como Patos e Uberaba. Em 1938, o monstro teria pulado o Rio Grande, entrando no território paulista. As explicações sobre sua origem eram muitas. O jornal “Correio de Barretos” publicou uma versão, de Campo Belo, no Triângulo Mineiro.
Praça Francisco Barreto em 1938, época que circulou a versão mineira da lenda do "Come-Língua". Foto Fiori - Acervo do Museu Ruy Menezes.

De acordo com a lenda, um lavrador recebia diariamente, na roça, o almoço e o jantar, que eram levados por seu único filho, um rapaz comilão e peralta. Nos últimos tempos o jovem deu de comer, durante a caminhada para a roça, as carnes que levava ao pai, deixando-lhe somente os ossos. O pai reclamou ao filho. A explicação foi sucinta: a carne era comida por um companheiro que sua mãe havia arranjado.
A mãe, interpelada pelo marido, ficou horrorizada com a justificativa do filho e afirmou que ele é quem comia a carne pelo caminho. O filho, no entanto, jurou, na presença da mãe, que ela tinha um companheiro que mandava ao pai os ossos.
O lavrador enfurecido acreditou no filho e espancou cruelmente a esposa. E meio louco de ódio, cravou-lhe uma faca no peito. E a mulher, ao morrer, ainda teve tempo de atirar ao filho uma praga: como ele tinha sido tão linguarudo, haveria de passar, dali por diante, durante 7 anos, alimentando-se apenas de língua.
Assim nasceu a lenda do “Come-Língua”.

Publicado no jornal Documento Diário, edição de 2 de março de 1993.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Acudam: a boiada estourou em Barretos

Durante muito tempo, Barretos conviveu com os estouros de boiadas. Na terra do gado e do peão de boiadeiro, os antigos moradores contam muitas histórias sobre os tais acontecimentos. Alguns episódios ficaram famosos.
A 11 de abril de 1943, o editorial do “Correio de Barretos”, pedia a abertura de nova estrada boiadeira. Segundo o jornal, os moradores entre as ruas 4 e 8, avenidas 15 e 31, estavam apavorados com os freqüentes desastres, especialmente os ocorridos durante os estouros de boiadas, com animais invadindo casas e quintais. Na época, um abaixo-assinado contendo mais de 500 assinaturas, reivindicava a mudança do corredor boiadeiro da rua 4. O documento foi entregue ao prefeito Fabio Junqueira Franco.
Dois anos depois, a 24 de junho de 1945, após a missa em louvor a São João Batista, celebrada na matriz do Divino Espírito Santo, um estouro de boiada surpreendeu os fiéis que saíam da igreja e assustou os moradores da cidade. As súplicas eram ouvidas à distância:
-- “Valha-me Nossa Senhora dos Aflitos!”
-- “Socorra-nos Menino Jesus!”
-- “Acuda-nos Virgem Maria!”
-- “Defenda-nos São José!"
Apesar das preces ou em razão das orações, apenas um boi atacou e chifrou o sapateiro Camilo Simão, deixando-o prostrado ao solo, no jardim da matriz. A vítima foi socorrida pelo dentista Narciso Antonio Junior.
No dia 7 de junho de 1965, segunda-feira, aconteceu um dos últimos estouros que se tem notícia em Barretos. Mais de 300 bois que estavam sendo conduzidos ao Matadouro Minerva se espalharam pela cidade, principalmente pelas praças e ruas centrais. Foi um Deus nos acuda! Gente correndo, boi investindo, o comércio fechando apressadamente as portas, uma confusão enorme.
Depois de duas horas de caçada aos bois, a cidade estava diferente. No jardim central, nas ruas, nas avenidas, no bairro Primavera, na Vila Baroni, por todos os cantos, enfim, havia boi amarrado. Uma frota improvisada de caminhões recolhia os animais. Acompanhado do tio Osvaldo, o historiador Bié Machinone, viveu a aventura, fotografando animais atados em diversos pontos da cidade.
O jornalista Paulo Flosi ironizou o episódio no jornal “A Semana”, de 13 de junho, com a crônica “Eu destaco você”, com algumas gozações que corriam na praça.
Motivo de susto e piadas, o fato é que estouro de boiada felizmente não acontece mais por estas bandas. Mas vive nas lembranças de muitos barretenses.


Publicado no jornal O Diário, edição de 27 de Junho de 1998.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Tragédia: raio atinge peões no estradão, apenas um deles escapa da morte

Julho de 1942. Os relâmpagos anunciavam uma tempestade. As nuvens escureciam cada vez mais o cenário. Era noite. As faíscas no céu iluminavam o caminho. A sucessão de descargas elétricas e trovões antecipava a intempérie prestes a se abater sobre aquela região.
Antiga Estação de Mandembo - fonte site Estações Ferroviárias do Brasil
No corredor boiadeiro três peões retornavam de uma viagem. O patrão os enviara “prá baixo” da estação férrea de “Mandembo”, localizada em Bebedouro. Foram entregar uns garrotes. Tarefa cumprida voltavam para casa. Cavalgavam lado a lado. Tentavam fugir do temporal. Buscavam abrigo. Trotavam os animais, pois não era possível galopar na noite escura.
Uma porteira reteve por alguns instantes Carlito, João de Abreu e Cosmo Beltrão. Era mais ou menos umas sete e meia da noite. Naquela situação não era possível consultar o relógio. Ultrapassando o obstáculo, depararam com um areião. Amontoados de arranha-gatos secos ladeavam a estrada. Tudo indicava que os espinhos foram retirados da invernada e colocados à beira do caminho.
De repente, um clarão súbito acompanhado de um estrondo. Luz intensa, viva. Instantânea. Sem tempo para qualquer reação. Uma explosão. Sem nenhuma oportunidade para pensar no que estava acontecendo. Parecia que o mundo chegava ao fim. Em chamas. Fogo... Um raio atingia os três boiadeiros. A chuva “brava” caía. Um dilúvio.
Carlos Faria, o Carlito, na época com 21 anos de idade, quase não lembra com detalhes o que aconteceu naquela noite. Com o passar do tempo a cabeça ficou ruim. Porém, recorda que o impacto provocado pela descarga elétrica lançou-o para frente do animal. Atordoado, recuperou logo os sentidos. Voltou à razão, ficou em condições de observar o que havia acontecido. Ao seu redor, três animais e dois companheiros encontravam-se estendidos no chão.
Antes de dominar a situação, Carlito sentiu falta de alguma coisa. Reparou, então, que a botina do seu pé fora arrancada. A espora desaparecera. Sumiu na enxurrada. O chapéu de estimação nunca mais viu. O arranha-gato rasgou sua roupa quase o deixando pelado. Assustado com a tragédia, não deixou que o medo o dominasse. Precisava de muita coragem para salvar os companheiros.
A chuva caía. Porém, segundo Carlito, a água não apagava aquele fogo. As roupas dos companheiros estavam em chamas, O peão não titubeou. Tirou a camisa do Cosme Beltrão, na ânsia de livrá-lo da morte. Mas o esforço foi inútil. Notou que havia um vergão de “ponta a ponta” no boiadeiro e no seu cavalo. Foram fulminados.
-- “Ele morreu debruçado no arreio”, balbuciou.
O outro companheiro, João de Abreu, também estava morto. Foi encontrado embaixo do animal. Carlito tentou tirá-lo de lá. Não deu conta. O peso era enorme. As forças diminutas. Encontrava-se sozinho. Precisava de ajuda. Então, deixou-os naquele local e saiu andando pelo pasto em meio a tempestade. Orientava-se pela claridade dos relâmpagos. Buscava socorro...
-- “Salvei-me por Deus!”, exclamou Carlito.
Depois do episódio, o sobrevivente ficou um mês sem trabalhar. Não queria sair de casa. Se notasse a formação de nuvens, anunciando a possibilidade da chuva, escondia-se embaixo da cama. Ficou com medo. A cisma, no entanto, aos poucos foi passando. Devagarzinho...
Certa ocasião, Carlito encontrava-se lidando com gado numa invernada, lá em Bebedouro. Bem longe da sede da fazenda. Aos poucos, a formação de nuvens previa chuva. O peão não hesitou. Montou o animal, cutucou a espora e chegou o chicote. No desespero para escapulir ao possível temporal, açoitou tanto a montaria que quase a matou. Mas a chuva não veio...
Cinquenta e sete anos depois, Carlito achava que o medo é bobagem. Em sua opinião, “quando tem que acontecer...”
No local do acidente, construíram uma capelinha. O sobrevivente já passou várias vezes pelo lugar. Não receia nem teme coisa alguma. Guarda apenas lembranças e saudade dos companheiros falecidos. Acha que a tragédia dava moda de viola. E quando lhe disseram que o lugar é assombrado, contestou:
--“Eu viajei sozinho pelas estradas com arribada. Pousava no mato... boi amarrado no pau... mula.... tudo mais e nunca vi nada disso....”
Aposentado, o peão gostava de lembrar-se dos tempos em que morava na estrada. Cama quase não via, dormia só na rede. Casou-se, mas a união não deu certo. Separou da mulher. Diz que perdeu as contas dos netos e bisnetos.
Reprodução de foto publicada no jornal "Barretos Bairros" de agosto de 2005, onde Carlito segura o berrante, tendo ao lado a cachorra "Sari".
A primeira vez que papeei com Carlito ele morava na Vila Marília. Era 1977. Reencontrei-o no mesmo bairro, mas em outra casa, em 2005. Corintiano, tinha aos 85 anos a companhia da fiel cachorra “Sari”. Em agosto ele pretendia ir ao Parque do Peão para tentar receber uma dívida antiga.
--“E espero que o rapaz esteja lá!”
Desconheço o resultado do pretenso acerto de contas. Não falei mais com o peão. Depois, soube que Carlito já se tinha ido desta terra....

Publicado originalmente no jornal O Diário, edição de 18 de novembro de 1997; e no jornal Barretos Bairros, edição da 1ª quinzena de agosto de 2005.

A péssima fama de Barretos se confirma

Barretos, no passado, tinha fama de ser uma cidade de valentões, onde a violência imperava. Muitos “causos” se contam sobre aquela época. Lembremos um deles.
Alcebíades Menezes estudava em São Paulo por volta de 1917. Numa roda de conversa, um estudante de Direito reparou no sotaque e no modo de falar do barretense. Então, perguntou:
-- “De que cidade mineira você é?”
-- "Sou paulista! Sou de Barretos!”
Imediatamente a resposta de Alcebíades Menezes, o bacharelando retrucou:
-- “Cruzes! Você é daquela terra de bandidos? Quantos você já matou???”
Alcebíades Menezes, barretense bairrista, apaixonado pela sua terra, procurou defender a cidade. Mas não havia argumento que convencesse o futuro bacharel. Sem nenhuma cerimônia, ele dizia coisas horríveis de Barretos e a sua gente.
Durante a discussão, Alcebíades Menezes já estava perdendo a paciência com o debatedor, quando um garoto que vendia jornais passou por perto e gritou bem alto:
-- “Óiaaaaaaa o Estadinhooooooooo!... O crime de Barretossssssssss!”...
Alcebíades Menezes comprou o jornal. A publicação trazia com muitos detalhes a notícia do assassinato do advogado Francisco Itagiba. A vítima havia sido covardemente baleada no seu gabinete de trabalho através de uma janela que dava para a Praça Francisco Barreto.
Diante a notícia, o acadêmico falava com ares de vitória
-- “Eu não disse! Eu não disse que esse Barretos é o fim do mundo!?!”
Murcho, angustiado pela derrota, Alcebíades Menezes não teve alternativa senão voltar para o seu quarto de pensão. Muito sentido com a situação percebeu que a péssima fama de Barretos se confirmava.
Rua 18 em 1917 é uma das fotos antigas do acervo do Museu Ruy Menezes

Publicado no jornal Documento Diário, edição de 27 de fevereiro de 1993.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Japonês de 84 anos atacou de "samurai do berrante" na venda do "Nêgo Peão"

Manhã de sábado, 28 de agosto de 2010, no Ponto de Pouso, no Parque do Peão. Um velho japonês meio desconfiado e parecendo um estranho no ninho, observava a movimento de preparação para o concurso de berrante e para a competição culinária dos peões conhecida como Queima do Alho. Convidado pela organização do evento, não se fez de rogado, puxou o berrante pendurado no seu ombro e “executou” o instrumento no palco aonde os “artistas” iriam se apresentar, em frente a venda do "Nêgo Peão". Foi muito aplaudido.
Repórter Marcos Diamantino entrevistou o berranteiro oriental
Assim Hirofumi Fujiwara, o “seo” Mário, 84 anos, nascido em Hyogo, Japão, chamou a atenção dos presentes e da imprensa. Foi entrevistado pela televisão, jornais e pelo site oficial de Os Independentes, a Associação que organiza a Festa do Peão de Barretos. Ficou orgulhoso do seu feito.
Contou que há muito tempo mora em São Paulo, onde foi lavrador, massagista e comerciante de material fotográfico. Quando descobriu o concurso de berrante de Barretos ficou inquieto. Um dos filhos o trouxe ao evento. Há 5 anos comprou seu primeiro berrante e há meses começou a aprender a tocar o instrumento. Um vídeo do berranteiro Zé Capeta, baixado da internet, o estimulou ao aprendizado, embora a surdez parcial causasse um pouco de dificuldade. No entanto, “seo” Mário garantiu que pretendia aperfeiçoar o toque do berrante e divulgar a cultura caipira no Japão.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Sem fim

Sentimento profundo
Sem diálogo
Alma sofrida
Espinhos viventes

Sonho impossível
Dois – uma vida
... Decepções...
... Marcas...

Soluços incontidos
Prantos esparsos
Face molhada
Vida sem vida.

...Realidade...
Aparência fingida
...Soluções?...
Apenas... – um...

Final feliz
Dois separados
Destinos opostos
Amor eterno.

Nota do editor: Para um jovem de 18 anos, bastante madurez. Uma visão interessante de que é possível um desencontro com amor e uma possibilidade de construir contra o destino.
P.P.R.

Publicado no jornal “O Lutador”, edição de 28 de abril de 1974 (Belo Horizonte, MG)