PITA FOGO BARRETOS

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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Tragédia: raio atinge peões no estradão, apenas um deles escapa da morte

Julho de 1942. Os relâmpagos anunciavam uma tempestade. As nuvens escureciam cada vez mais o cenário. Era noite. As faíscas no céu iluminavam o caminho. A sucessão de descargas elétricas e trovões antecipava a intempérie prestes a se abater sobre aquela região.
Antiga Estação de Mandembo - fonte site Estações Ferroviárias do Brasil
No corredor boiadeiro três peões retornavam de uma viagem. O patrão os enviara “prá baixo” da estação férrea de “Mandembo”, localizada em Bebedouro. Foram entregar uns garrotes. Tarefa cumprida voltavam para casa. Cavalgavam lado a lado. Tentavam fugir do temporal. Buscavam abrigo. Trotavam os animais, pois não era possível galopar na noite escura.
Uma porteira reteve por alguns instantes Carlito, João de Abreu e Cosmo Beltrão. Era mais ou menos umas sete e meia da noite. Naquela situação não era possível consultar o relógio. Ultrapassando o obstáculo, depararam com um areião. Amontoados de arranha-gatos secos ladeavam a estrada. Tudo indicava que os espinhos foram retirados da invernada e colocados à beira do caminho.
De repente, um clarão súbito acompanhado de um estrondo. Luz intensa, viva. Instantânea. Sem tempo para qualquer reação. Uma explosão. Sem nenhuma oportunidade para pensar no que estava acontecendo. Parecia que o mundo chegava ao fim. Em chamas. Fogo... Um raio atingia os três boiadeiros. A chuva “brava” caía. Um dilúvio.
Carlos Faria, o Carlito, na época com 21 anos de idade, quase não lembra com detalhes o que aconteceu naquela noite. Com o passar do tempo a cabeça ficou ruim. Porém, recorda que o impacto provocado pela descarga elétrica lançou-o para frente do animal. Atordoado, recuperou logo os sentidos. Voltou à razão, ficou em condições de observar o que havia acontecido. Ao seu redor, três animais e dois companheiros encontravam-se estendidos no chão.
Antes de dominar a situação, Carlito sentiu falta de alguma coisa. Reparou, então, que a botina do seu pé fora arrancada. A espora desaparecera. Sumiu na enxurrada. O chapéu de estimação nunca mais viu. O arranha-gato rasgou sua roupa quase o deixando pelado. Assustado com a tragédia, não deixou que o medo o dominasse. Precisava de muita coragem para salvar os companheiros.
A chuva caía. Porém, segundo Carlito, a água não apagava aquele fogo. As roupas dos companheiros estavam em chamas, O peão não titubeou. Tirou a camisa do Cosme Beltrão, na ânsia de livrá-lo da morte. Mas o esforço foi inútil. Notou que havia um vergão de “ponta a ponta” no boiadeiro e no seu cavalo. Foram fulminados.
-- “Ele morreu debruçado no arreio”, balbuciou.
O outro companheiro, João de Abreu, também estava morto. Foi encontrado embaixo do animal. Carlito tentou tirá-lo de lá. Não deu conta. O peso era enorme. As forças diminutas. Encontrava-se sozinho. Precisava de ajuda. Então, deixou-os naquele local e saiu andando pelo pasto em meio a tempestade. Orientava-se pela claridade dos relâmpagos. Buscava socorro...
-- “Salvei-me por Deus!”, exclamou Carlito.
Depois do episódio, o sobrevivente ficou um mês sem trabalhar. Não queria sair de casa. Se notasse a formação de nuvens, anunciando a possibilidade da chuva, escondia-se embaixo da cama. Ficou com medo. A cisma, no entanto, aos poucos foi passando. Devagarzinho...
Certa ocasião, Carlito encontrava-se lidando com gado numa invernada, lá em Bebedouro. Bem longe da sede da fazenda. Aos poucos, a formação de nuvens previa chuva. O peão não hesitou. Montou o animal, cutucou a espora e chegou o chicote. No desespero para escapulir ao possível temporal, açoitou tanto a montaria que quase a matou. Mas a chuva não veio...
Cinquenta e sete anos depois, Carlito achava que o medo é bobagem. Em sua opinião, “quando tem que acontecer...”
No local do acidente, construíram uma capelinha. O sobrevivente já passou várias vezes pelo lugar. Não receia nem teme coisa alguma. Guarda apenas lembranças e saudade dos companheiros falecidos. Acha que a tragédia dava moda de viola. E quando lhe disseram que o lugar é assombrado, contestou:
--“Eu viajei sozinho pelas estradas com arribada. Pousava no mato... boi amarrado no pau... mula.... tudo mais e nunca vi nada disso....”
Aposentado, o peão gostava de lembrar-se dos tempos em que morava na estrada. Cama quase não via, dormia só na rede. Casou-se, mas a união não deu certo. Separou da mulher. Diz que perdeu as contas dos netos e bisnetos.
Reprodução de foto publicada no jornal "Barretos Bairros" de agosto de 2005, onde Carlito segura o berrante, tendo ao lado a cachorra "Sari".
A primeira vez que papeei com Carlito ele morava na Vila Marília. Era 1977. Reencontrei-o no mesmo bairro, mas em outra casa, em 2005. Corintiano, tinha aos 85 anos a companhia da fiel cachorra “Sari”. Em agosto ele pretendia ir ao Parque do Peão para tentar receber uma dívida antiga.
--“E espero que o rapaz esteja lá!”
Desconheço o resultado do pretenso acerto de contas. Não falei mais com o peão. Depois, soube que Carlito já se tinha ido desta terra....

Publicado originalmente no jornal O Diário, edição de 18 de novembro de 1997; e no jornal Barretos Bairros, edição da 1ª quinzena de agosto de 2005.

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