PITA FOGO BARRETOS

PITA FOGO BARRETOS

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

CAPITULO 1 – Zé Gonçalves, um xerife no Ibitu

-- Zé Gonçalves vem aí!...

Estava dado o alerta à freguesia da venda.

-- Olha o bate pau do Ibitu!...

Assim os moradores da vila identificavam o subdelegado. Através de uma espécie de plebiscito haviam escolhido o representante do lugarejo perante a lei. Na década de 50, quando a autoridade da cidade quis nomear o novo subdelegado do Ibitu, o povo falou:

-- Ponha o Zé Gonçalves que é um sujeito de muito respeito. Ele diverte bem com todo mundo e dá respeito.

A partir de então, o novo “xerife” recebeu ordem para averiguar todas as queixas. Agia como espécie de Juiz das Pequenas Causas, contornando e resolvendo a desinteligências. A maioria das ocorrências era considerada corriqueira. De vez em quando a Cadeia hospedava alguns bêbados, que ficavam ali até curar o porre. Os soldados que trabalhavam sob a orientação do subdelegado ficavam numa casa perto do xilindró.

Durante o período de 8 anos em que permaneceu no cargo de subdelegado, Zé Gonçalves não registrou nenhum crime. Porém, o esporte era cenário para algumas desavenças.

-- Antigamente dava muita briga no futebol. Aliás, até hoje sai algum quebra-pau e catiripapos. As maiores rivalidades são com os times da Cachoeira e da Lagoinha.

Certa vez aconteceu um acidente pessoal e fatal:

-- Eu ainda morava na fazenda do João Estulano. Um rapaz saiu de trator carregando uma espingarda pra matar codorna. Ao passar pelo pasto, uma das rodas caiu numa cisterna velha, coberta pelo capim. Com o impacto, a arma disparou e o tiro pegou próximo ao umbigo do sujeito. O moço não resistiu aos ferimentos e faleceu.



Primeira parte de texto publicado originalmente no Jornal O Diário de Barretos, edição de 27 de janeiro de 1991, sob o título: “Zé Gonçalves, um xerife no Ibitu”

sábado, 9 de outubro de 2010

O santo de Barretos

O calendário assinalava 1908 ou 1909. Muitas pessoas passaram a abandonar as roças, os lares, para seguir um “santo” – de carne e osso – que aparecera na região da Lagoinha.

São Francisco Miotti era o “santo”. E ninguém sabia de onde vinha aquele italiano de baixa estatura, com calvície incipiente, cabelos longos, bigode espesso e barba comprida.

Conta Alcebíades Menezes que “o santo” fazia vibrações ininteligíveis, misturando um dialeto italiano com algumas expressões em péssimo português.

E rezava extensas ladainhas ao pé de cruzes, obrigatoriamente de cedro tosco, que ia plantando por onde passava.

Carregava ainda uma forma de folha de Flandres, muito enferrujada, em que moldava enormes velas de cera virgem, com que iluminava o seu culto que estendia até altas horas da noite.

A fama de milagres do “santo” começou a atrair muita gente.

As autoridades locais temiam pela “perturbação da ordem”, principalmente quando alguém contestasse a santidade do estranho indivíduo. E não houve alternativa senão pedir apoio à polícia estadual.

A Força Pública mandou então para Barretos uma “captura” formada por uns dez ou doze soldados bem armados e municiados, comandados pelo alferes João Antonio de Oliveira, o famoso tenente Galinha.

Ao saber da identidade do comandante da expedição, a multidão que estava acampada com o “santo” numa fazenda próxima de Olímpia, debandou-se.

A “captura” deteve o “santo” e recolheu-o na cadeia de Olímpia. Segundo Roque Félix, que conheceu São Francisco Miotti no xadrez, levado pelas mãos do tenente Galinha, um grupo de velhas acompanhava à pequena distância a movimentação na prisão.

Dos objetos arrecadados de São Francisco Miotti, fizeram um leilão. Com a renda, compraram o sino que serviu na cadeia de Olímpia durante muito tempo.

As velas de cera virgem, usadas pelo “santo” no culto, eram guardadas como lembranças.

O tenente Galinha levou São Francisco Miotti para a capital paulista. Segundo Alcebíades Menezes, o “santo” foi internado no hospício de Juqueri, onde terminou seus dias como excelente jardineiro. A imprensa paulistana da época o chamava de o “Santo de Barretos”.



Publicado originalmente no jornal O Diário de Barretos, edição de 31 de março de 1993

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Última parte - Epílogo da zona

No final de 1960, na gestão do prefeito Christiano Carvalho, o confinamento foi transferido para o bairro Alvorada. Hoje, praticamente não existe. As “casas de família” invadiram a zona, expulsando as meretrizes. As famosas “chacrinhas” começaram a predominar.


7ª e última parte de reportagem publicada no jornal O Diário, edição de 19 de maio de 1991, sob o título “Do Bico do Pavão a Rosinha da Porteira”

Parte 6: O homossexual Beni

Um dos mais famosos homossexuais de Barretos nos anos 40 a 60, Benedito Carlos Piacentini, o Beni, tinha 58 anos em 1991 e morava em Jaboticabal, onde mantinha uma hospedaria. Ele é autor do livro: “Beni, o Mito Sexual de Uma Época”, em que conta a sua história. De fino trato, com invejável memória, Beni também publicou “A Casa Verde da Beira da Linha – Onde a AIDS Não Tinha Vez”, com episódios acontecidos em uma residência na Rua Fábio Junqueira Franco, no Bairro Exposição, entre os anos 58 e 68. O livro também conta de forma bem picante, a história do “Bico do Pavão” e da “Rosinha da Porteira”
Beni chamou a atenção dos barretenses a partir do carnaval de 1947, quando desfilou com fantasias femininas. Muitos caipirões pensavam inclusive que fosse mulher, em virtude de seus modos, trejeitos e beleza. Durante muito tempo trabalhou no comércio da cidade. Antes de freqüentar a zona do meretrício e montar sua própria casa, era “figurinha fácil” no “rendez voux” do idoso alcoviteiro Acácio, que também vivia do curandeirismo e cartomancia. Beni tinha como grandes companheiros, o garçom Diquinho e Ewelyn Rafael da Silva, que também mudou-se para Jaboticabal.


6ª parte de reportagem publicada no jornal O Diário, edição de 19 de maio de 1991, sob o título “Do Bico do Pavão a Rosinha da Porteira”

Parte 5: Rosinha da Porteira

Rosinha adquiriu o apelido ainda jovem, quando abria a porteira em uma fazenda do governo em Sertãozinho, recebendo em troca moeds de 200 e 400 réis. Deflorada, pela volumosa quantia de 10 mil réis, foi expulsa de casa. Então, veio para Barretos e desembarcou na Estação Ferroviária da Paulista com a importância de 17 mil réis. Trabalhando para a anfitriã Barretinha, filha de Katuta, Rosinha da Porteira economizou dinheiro e, em 1939, comprou o prostíbulo em que se hospedava, tornando-se com o tempo, uma das senhoras mais ricas da cidade. Há uma lenda, “desmentida”, de que teria um ânus de prata.

A 2 de maio de 1947, Rosinha da Porteira adquiriu a “Pensão Chic” na esquina da avenida 17 com a rua 26, sendo considerada uma mulher vivaldina. Depois de algum tempo, ela passou a residir na rua 28, avenidas 15 e 17. Depois, mudou-se para Ribeirão Preto, onde, idosa, doente e debilitada, faleceu.



5ª parte de reportagem publicada no jornal O Diário, edição de 19 de maio de 1991, sob o título “Do Bico do Pavão a Rosinha da Porteira”

Parte 4: Os apelidos e nomes de guerra

Os apelidos e nomes de guerra das prostitutas, cortesãs e marafonas sempre foram interessantes. Muitos conheceram Iolanda Ban Ban, Papuda e Topetuda, Ana Toco Rolô, Decaída Nena, Sebastiana Pé de Meia, Luiza Cabeça de Pano, Iolanda do Catigiró, Constantina Bangue-Bangue, Cecília Gibória, Cósquinha, Geralda Galo Cego, Bordelina, Chica e Luzia Pemba, Rainha do Tabaco, Tereza Mula Manca, Cida Carabina, Furupa, Bizaca, Maria Mole, Neuzirê, Sebastiana Pé de Molambo, Maria do Arroz, Izolina Cachambuda, Lídia Pé de Cachorro, Negra do Quifafá, Odete Pé de Bicho, Vitórias das Jóias, Madame Vanda, Madame Dulce, Conga, Bola Sete, Chiquinha Vitróla, Baleira, Chibiu, Meire Turca, Pinta Roxa, Balalaiquinha, Geralda Topete, Rosinha do Campim, Angelina Bacia, Negrinha Boiadeira e Almerita (também chamada de “Greta Garbo” barretense).



4ª parte de reportagem publicada no jornal O Diário, edição de 19 de maio de 1991, sob o título “Do Bico do Pavão a Rosinha da Porteira”

Parte 3: Os cabarés em Barretos

Naqueles tempos, havia alguns cabarés conhecidos, às vezes, “verdadeiras espeluncas em que a sanfona animava as danças em meio as pancadarias, às facadas e ao tiroteio”, registra Ruy Menezes. “Um ficou famoso ao seu tempo: o ‘Pedro Isca’, autêntico símbolo da desordem. Outro era o ‘Torrador’, que se situava à rua 22, na esquina com avenida 3, perto dos trilhos da estrada de ferro, onde antes havia uma torrefação de café. E havia ainda mais outros, como o ‘Paineira’, assim designado por uma paineira que crescia em suas imediações, cada qual mais turbulento e agitado que o outro”.

Segundo Ruy Menezes, “o Bico do Pavão hoje já não mais existe, graças à ação enérgica do então subdelegado Jorge Abdala Thomé, que acabou espantando de lá as meretrizes, fechando-se em conseqüência os botequins e cabarés”. A partir de 1946, quando o meretrício foi transferido para as ruas 26, 28 e 30 e avenidas 17 e 15, o Dancyng “A Garota”, foi apelidado “Puxa Faca”, em virtude das constantes confusões e mortes. Alguns exagerados da época, garantem que quando não ocorria duas ou três mortes por noite, era “café fraco”.

Aqueles que dispunham de muito dinheiro, freqüentavam cabarés luxuosos. O mais famoso foi o “Cabaré Maringá”, na rua 20, avenidas 15 e 17. Posteriormente, foi substituído pelo “Dancyng Avenida”, também “Cantina do Nagib”, na esquina da rua 26 com avenida 15. Os shows eram deslumbrantes, visto que os estabelecimentos promotores ostentavam luxo. Artistas internacionais e companhias de balé proporcionavam espetáculos com freqüência. Durante muito tempo, o “Cassino Tropical” e “Cassino OK” funcionaram no prédio que abrigou a Estrela D’Oriente e onde está instalado o Escritório Bóro Contabilidade, na avenida 17.


3ª parte de reportagem publicada no jornal O Diário, edição de 19 de maio de 1991, sob o título “Do Bico do Pavão a Rosinha da Porteira”

Parte 2: As divisões da zona

A zona do meretrício dos tempos áureos era dividida em duas classes. A elite esparramava-se pela cidade a partir do antigo “Bar do Costa”, na esquina da rua 20 com avenida 15. O baixo meretrício situava-se lá no “Outro Mundo”, como se chamava o bairro Fortaleza, nas imediações das avenidas 1,3 e 5 e ruas 22 e 24. Ali se instalava o famoso Bico do Pavão.

No livro “Espiral – História do Desenvolvimento Cultural de Barretos”, Ruy Menezes conta que “pouca gente que se prezava tinha coragem e disposição para passar ali, mesmo durante o dia. Zona conflagrada por excelência, mulheres de nula categoria, peões embriagados, dando tiros para o ar no meio da rua e enchendo os botequins onde a cachaça era sorvida à larga”.

As “casas de tolerância” de primeira classe eram freqüentadas por fazendeiros, milionários, políticos, comissários de grandes boiadas e personagens da sociedade de Barretos, região e outros Estados. Em algumas residências e cabarés, não eram permitidas pessoas negras, mulatas, cabelo carrapicho e pobres. Os porteiros mandavam a “gente de segunda categoria” freqüentar o “Bico do Pavão”.

O jornalista Ruy Menezes relata que no meretrício “compunha-se o mulherio de todos o tipos e feitios, desde as belas ‘paraguaitas’ às bonitas morenas de Araguari ou de Uberaba, até as indefectíveis francesas, uma fauna à parte em meio às paisagem humana de Barretos. Bem vestidas, com exagerados decotes, recamadas de jóias, entregavam-se à tardinha ao “trotoir” pelas ruas centrais da cidade, como se fossem mercadorias de luxo expostas em “vitrines” movediças. E ficavam até o início da primeira sessão de cinema às 19h30, quando, assistindo aos filmes, ocupavam, as mais ricas, os lugares de maior projeção e saliência, as “frisas”, enquanto as de “classe média” digamos assim, misturavam-se ao povo da platéia. Depois, as noitadas nos cabarés. Porém, era no carnaval, que as “marafonas” se destacavam muito.

Cavalheiros e coronéis, assíduos nos prostíbulos, subiam nas mesas e atiravam notas de 500 mil réis – denominadas ‘caolhas” – para as “mariposas”. Alguns faziam cigarros com o dinheiro, colocavam fogo e fumavam, numa demonstração e poderio econômico, incentivando as mulheres para a orgia. Alguma donas de casa e prostitutas, ludibriavam os fregueses, aumentando a conta enquanto os “trouxas” estavam distraídos na farra.



2ª parte de reportagem publicada no jornal O Diário, edição de 19 de maio de 1991, sob o título “Do Bico do Pavão a Rosinha da Porteira”

Parte 1: O meretrício

No período do eldorado barretense, com a “febre do gado”, a cidade abrigou uma instituição rentável, uma verdadeira atração turística: o meretrício. Os prostíbulos, conhecidos por lupanares ou pensões, eram freqüentados por gente de toda espécie, do milionário ao “pé-rapado”. O considerado “antro da perdição” movia o comércio e o município.

Sob a bandeira da moral e dos bons costumes, em 1910, algumas pessoas pediam providências ao delegado de polícia “para a malta de vagabundos e mulheres de vida airada” que todas as noites se reuniam na Estação Ferroviária, com comportamento inconveniente.

Osório Rocha, no livro “Barretos de Outrora”, conta que em 1918, Mario Barbosa, funda um cassino na rua 20, no prédio onde fica a União Síria. Segundo o historiador, “as senhoras barretenses se alarmam e protestam, com razão, pois ali impera o vício: bebida, jogo, vadiagem, mulheres”. O valentão Filogônio de Carvalho, que domina a cidade em 1925, é um dos freqüentadores e, de revólver à cinta, toma com as artistas lições de tango argentino.

Em 1919, a Câmara Municipal foi “honrada” com a vizinhança de um bordel. O fato provocou a indignação de muitos moradores.



1ª parte de reportagem publicada no jornal O Diário, edição de 19 de maio de 1991, sob o título “Do Bico do Pavão a Rosinha da Porteira”

domingo, 28 de março de 2010

Deu a louca na mãe

--“Ah! Eu não agüento! Acho que vou ter um troço...”, desabafa a mulher. E teve mesmo. Gritaria, histerismo, espasmos, sintomas de desequilíbrio mental e loucura, se confundiam. E o corpo feminino, maltratado e acabado, contorcia numa cena dantesca de chamar a atenção da vizinhança. “Liga pra polícia”, sugeriu um. “Chame a ambulância”, dizia outro. “O Mariano Dias é a única solução”, diagnosticava alguém.

Lida doméstica não é fácil. Para muitos parece vida de “mandruvá” – dormir... acordar... comer... beber...cagá... dormir... – mas, não é bem assim, principalmente em uma casa na qual a gurizada reina. O coração de mãe, por mais acolhedor e amoroso que possa parecer, está sujeito a explodir a qualquer momento. Sintoma do stress doméstico.

Maria de Jesus, quarentona, desconhece a monotonia da vida de casada. Os áureos momentos da juventude são recordações. Esvaziaram-se os sonhos de eterna felicidade quando pronunciou o “sim” diante do altar da Igreja Matriz, num compromisso de fidelidade ao amado Pafúncio. As delícias da vida a dois transformaram com a chegada do primogênito. Depois veio o segundo. Em seguida, o terceiro... quarto... quinto... sexto... (e não adiantava televisão!)... sétimo... oitavo. Quando a escadinha projetava-se para o livro dos recordes, a produção parou. Afinal, o salário do marido era pequenino para tanto filho. Oito... Quem diria!...

Agüentar a gritaria da filharada não era mole: “Manheeeê!... Eu quero mamá, manheeeê!...” Paciente, Maria de Jesus, respondia: “Espera um pouquinho só, meu filho!” Ao passar os anos, o barulho era ensurdecedor: “Manhê! A comida tá pronta?, perguntava um. “Manheeeê!... A professora de português me deu zero na prova!”, contava outro. “Manheeeê!... A senhora passou minha roupa?... Me dá um dinheiro?... Deixa ir na boate, hoje à noite?... O espelho do quarto quebrou sozinho!... Costura minha calça?... O Alfredinho puxou meu cabelo!... A senhora deixa eu fumar?... O Marcelo me deu um cóqui!... Cadê minha cueca?... Tem passe pro circular?...” As indagações e afirmações sucediam numa velocidade impressionante: “Manheeeê!... Manheeeê!.... Manheeeê!... Manheeeê!...”

Veio a crise. Que flagelo. Debilidade mental à vista. Tratamento à prazo. E numa camisa de força, desfalecida, Maria de Jesus seguiu numa ambulância, sentindo o prazer de ser a rainha do lar.





* l.º lugar na categoria geral do 3.º Concurso de Textos Uniart “Prêmio Ruy Menezes” ( 1990)